Jazz.pt review by Tiago Morgado


Luís Lopes, Adam Lane, Igal Foni – What is When (CF 146)
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O guitarrista lisboeta Luis Lopes iniciou a sua formação musical no Hot Clube de Portugal, mas foi do rock que partiu. Em “What is When” faz-se acompanhar de Adam Lane e Igal Foni, o primeiro um contrabaixista e compositor de excelência que vê em Duke Ellington, Karlheinz Stockhausen e Melt Banana as suas maiores influências e o outro um menos conhecido baterista de Israel que lidera os Genious Goalkeeper.
A primeira faixa do álbum, “Evolution Motive”, funciona quase como um manifesto, com uma dupla dedicatória a Darwin, o teórico do evolucionismo, e a Sonny Sharrock, praticamente o único guitarrista do período áureo do free jazz. É como se nos fosse dado um plano de identificação formal, normativo e simbólico. As referências estéticas são muitas, na perspectiva do avant-jazz, mas buscando contactos com os blues eléctricos, o punk e até a música contemporânea. No tema de abertura, a guitarra entra com um ostinato que vai sendo explorado e desconstruído continuamente. Em “Spontaneus Combustion”, Lopes Trabalha com Texturas de carácter pontilhístico, com o contrabaixo a assumir, num tradicional registo em pizzicato, a predominância a nível do discurso musical, a bateria surgindo apenas com pequenos apontamentos. A estrutura é mais próxima da estandardizada e tem um registo de free jazz, com secções de exposição do tema intercaladas com desconstruções do mesmo. A coesão entre os três elementos é evidente e o modo como funciona a nível de interactividade entre os instrumentistas confere um carácter único à música. “Cerejeiras” arranca com um solo percussivo de métrica livre e quebrada, num jeito quase “ad libitum”, entrando a guitarra de seguida, com motivos de carácter essencialmente tonal-modal, para depois Lane tocar harmónicos com o arco segundo técnicas sul ponticello, pouco frequentes no jazz. O contrabaixo caminha para bordões cada vez mais dissonantes, explorando os recursos do instrumento. “The Siege” faz-nos lembrar algo próximo da música de grupos como Melt Banana, ou mesmo Zu. O nível de sofisticação sobe e se neste tema as conotações são mistas de punk e free, em “Street Clown Girl” as influências da música erudita contemporânea tornam-se óbvias. Regra geral, os músicos dirigem-se progressivamente para um clímax, ao qual sucedem situações mais calmas. Em “Melodic 8” começa o contrabaixo, com Adam Lane a recorrer a “loops”, depois entra Foni e finalmente Lopes, que ganha predominância solística num registo de monodia acompanhada. A nível de tensão e de forma, há um certo carácter de simetria. Em “Chichi Rides The Tiger”, já quase um cartão de visita do contrabaixista americano, essa tensão é cumulativa. Até estilisticamente, indo de um jazz “old school e “straight” para algo no cruzamento com o rock. O final é um dos pontos altos do CD, com um discurso tenso, profundo e arrojado.

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