O Sitio do Jazz review by Manuel Jorge Veloso


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Júlio Resende – Da Alma (CF 095)
Gostaria de começar por vos dizer que, ao referir as influências que tal ou tal músico possa parecer experimentar em relação a outras personalidades que julgo constituirem as suas referências modelares, é o lado positivo desta atitude (e não qualquer negativa reticência) que em geral me interessa realçar. Para ser mais claro, é o acerto e o bom gosto revelados por essas opções de inspiração (mais ou menos implícitas) que sobretudo aprecio, ao achar útil para o leitor sublinhar essas influências. 

Por exemplo, no que a este disco em concreto diz respeito, parece-me relativamente transparente que o jovem pianista Júlio Resende –  não só uma revelação mas já uma clara certeza na cena jazzíztica portuguesa  -, ao mesmo tempo que ainda procura, como é natural, uma linguagem e um caminho próprio, ensaia essa afirmação pessoal buscando alguns sinais de inspiração no mundo conceptual de um Brad Mehldau, por exemplo.

Entretanto, se uma tal tendência é susceptível de confirmação em peças como Deep Blue ou dA Alma, já outras peças deste disco se orientam em direcções diversas, privilegiando por um lado o uso de métricas irregulares mas também deixando-se entregar às batidas binárias da música funk e de outros espécimes da música popular urbana, como é o caso de Um Dia de Férias ou Ghost Dog.

Mas outros indícios extremamente interessantes e reveladores da procura de uma via pessoal se podem detectar em certas passagens deste primeiro opus de Júlio Resende.

Logo de início, por exemplo, Filhos da Revolução é-nos dada a ouvir como se de uma singela «canção de roda» se tratasse; e a própria introdução «marcial» no piano, pela subtileza deliberadamente titubeante com que é apresentada, sendo ainda passível de outras leituras, acaba por estar de acordo com a configuração geral da própria peça.

Por outro lado, mesmo que Deep Blue se enquadre, sem margem para dúvidas, na estrutura de um blues em 6/8, o certo é que alguns requebros «arabizantes» na sua linha melódica sugerem, a certa altura, a hipótese de estarmos perante o recorte de um fado (!), suscitando-se além do mais uma certa ilusão auditiva, ao parecer adivinharmos a presença (de facto apenas ilusória) de uma guitarra portuguesa…

Por último, um outro exemplo deste divertido gosto de Júlio Resende pelo efeito da ambiguidade e da surpresa parece-me patente em Move It!, sobretudo pela coabitação de secções temáticas ou improvisacionais de cariz totalmente diverso: a introdução free (só aparentemente deslocada) no piano, seguida da apresentação de um tema explícito e tonal mas exposto em duas direcções opostas (nas quais uma atmosfera agitada e jovial é entrecortada por uma passagem bopper, à boa maneira de Parker, fortemente swingada), sucedendo-se no plano solístico intervenções também elas divergentes, com Júlio Resende «grudado» ao sentido geral do tema e Alexandra Grimal a enveredar por uma improvisação relativamente livre em rubato até que, seguindo-se à intervenção mais contundente de Zé Pedro, a irrupção do piano pelo meio de uma pausa que parecia conclusiva nos reconduz à exposição do tema.

No campo improvisacional, para além da desenvoltura do líder na competente exploração das potencialidades do piano, Zé Pedro Coelho revela-se o solista mais consistente, utilizando com hábil apropósito as passagem em tons inteiros, os harmónicos, a constante descentragem dos acordes de passagem e o intenso cromatismo como factores de modernidade e dando-se a ouvir, em geral, com uma sonoridade cool, lisa e sem vibrato, um pouco na linha de um Mark Turner, mas sem deixar de impor, quando necessário, uma impetuosidade emocional que contagia os restantes.

Já Alexandra Grimal constitui uma agradável surpresa e um útil complemento tímbrico na componente dos sopros, revelando-se o rotundo contrabaixo de João Custódio e (quanto à percussão) sobretudo a ágil bateria de João Lobo, dois suportes rítmicos essenciais.

Ao leitor-ouvinte fica o desafio à descoberta das restantes virtualidades e limitações desta primeira e prometedora obra discográfica.
http://o_sitio_do_jazz.blogs.sapo.pt/7534.html

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