Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes


Sclavis/Taborn/Rainey – Eldorado Trio (193)
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Um clarinete, um piano e uma bateria – o contrabaixista ficou em casa com um pé engessado? Não, o jazz é que ensaia combinações cada vez mais livres. Quando os músicos são do calibre de Louis Sclavis, Craig Taborn e Tom Rainey a falta de um pilar nos graves não se nota e, para mais, Taborn e Rainey têm larga experiência no formato sopro + piano + bateria no Hard Cell Trio, liderado pelo saxofonista Tim Berne.

Confirmando o papel cada vez mais central assumido por Portugal no jazz internacional, o CD foi registado num estúdio nacional (Quinta da Música, em Grijó), com algumas faixas provenientes de um concerto ao vivo na Casa da Música, em 2009.

“Up Down Up” e “Possibilities” têm a marca de Sclavis: danças endiabradas, de swing retorcido e azougado, com reviravoltas inesperadas. Mas embora Sclavis seja o autor da maioria das composições, percebe-se que este é um trio de iguais e em que, mesmo quando há partes complexas notadas, a improvisação domina. “Let It Drop” são agitações passadas de mão em mão (sem que ninguém as deixe cair). Em “Lucioles” há cintilações fugazes de piano e uma bateria que em vez de marcar ritmo dá cor e textura. “La Visite” é de uma serenidade luminosa, da qual emerge um magnífico solo de Taborn.

O melhor está  guardado para o fim: “Eldorado” é misterioso, estático, velado, uma cidade fabulosa no meio de um lago, vagamente percebida entre a bruma. O piano desenha ondulações repetitivas, ao longe adivinha-se o resplendor das ruas pavimentadas a ouro, ecos de procissões chegam através das águas plácidas. O tempo escoa-se e a cidade é engolida pelo vapor sem que nos conseguíssemos aproximar dela ou entrever a sua forma. E é melhor assim: o encanto das cidades invisíveis é eterno.

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