Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes


Angles – Epileptical West (CF 182)
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A mudança de inquilino na Casa Branca não minorou o desencantamento de Martin Küchen, saxofonista e líder do colectivo sueco Angles, nem desanuviou o seu diagnóstico do estado do mundo. Se no anterior Every Woman Is a Tree havia um “Peace Is Not For Us”, neste há um “Today Is Better Than Tomorrow” – não contem com ele para optimismos.

Mas deixemos o (não muito articulado) discurso político de Küchen e passemos à música: os elogios dispensados a Every Woman Is a Tree merecem ser reforçados neste CD, gravado ao vivo no Salão Brazil, em Coimbra, durante o Festival Jazz Ao Centro de 2009. O sexteto está mais solto e afoito e a qualidade de som supera a do registo anterior – e supera também as primeiras gravações no Salão Brazil, o que mostra que a engenharia da Clean Feed conseguiu debelar a acústica ingrata da sala.

Küchen, Magnus Broo (trompete), Mats Aleklint (trombone), Mattias Stahl (vibrafone), Johan Berthling (contrabaixo) e Kjell Nordeson (bateria) passam facilmente do lamento à celebração, da fúria à hipnose. Podem soar tão densos como uma big band, mas o vibrafone introduz uma leveza extra-terrena. Em “Present Absentees/Pygmees” um trombone exuberante arrasta o grupo para uma dança jubilatória de sabor africano, o tema-título abre ao rubro, passa por contagiante groove rock e incendeia-se em fanfarras dementes, “En Svensk Brownie” tem riffs endemoninhados sobre vibrafone enfeitiçante e bateria metronómica, “Every Woman Is a Tree” (uma revisitação) é galvanizado por solos de sax e trompete de alta voltagem.

Epileptical West não substituirá Norah Jones nos iPods de gestores e analistas financeiros, mas encontrará lugar junto de quem acredita que o jazz não é um fundo sonoro para acompanhar um bom whisky.

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