Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes


Carlos Barretto – Labirintos (Clean Feed)
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Com os constrangimentos orçamentais a congelar por tempo indeterminado as ligações por TGV Porto-Vigo e Porto-Lisboa e com muitas linhas convencionais em estado comatoso, o futuro da ferrovia nacional está nas mãos de Lokomotiv, o trio liderado pelo contrabaixista Carlos Barretto.

O grupo tinha um desafio sério para resolver: as expectativas criadas pelos dois discos anteriores, Radio Song (2002) e Lokomotiv (2003), eram muito altas. Para mais, poderia atribuir-se parte do mérito destes notáveis registos à participação de dois “colossos” do jazz moderno: o clarinetista Louis Sclavis em Radio Song e o saxofonista barítono François Cornneloup em Lokomotiv.

Em Labirintos o trio apresenta-se sem reforços, mas não se sente a falta de ninguém. A guitarra de Mário Delgado está cada vez mais inventiva e ousada, a bateria de José Salgueiro alia solidez e versatilidade, Barretto ganhou desenvoltura nos solos e no uso do arco, mostrando que o trio aproveitou bem os sete anos transcorridos desde o último registo.

Em “Triklo Five” o contrabaixo e a bateria urdem um groove poderoso e saltitante, sobre o qual Mário Delgado, em registo cyborg, constrói um solo electrizante. Após um introspectivo interlúdio para contrabaixo solo (“Não sei quê”), a energia e os pedais de efeitos de Delgado voltam a impôr-se no tema-título, que deve muito mais aos King Crimson do que a Coleman Hawkins. As influências do rock progressivo e do jazz-rock dominam ainda “Tutti per Capita” e “Makambira”, esta última com Delgado a pincelar o fundo com efeitos atmosféricos que evocam Robert Fripp.

Os fãs do soft jazz poderão reclamar das sacudidelas e dos arranques bruscos, mas não há como negá-lo: o jazz dá o melhor de si quando sai dos carris.

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