Time Out Lisboa review by José Carlos Fernandes


Peter Evans – Live in Lisbon (CF 173)
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Peter Evans é o prodígio da trompete de quem se fala – em solo absoluto, como líder, como sideman, no colectivo Mostly Other People Do The Killing – e ao ouvir este concerto no Jazz em Agosto de 2009, percebe-se porquê: arrojo, irreverência, técnica enciclopédica e rapidez fulminante, por vezes inflamando-se em explosões de virtuosismo esfuziante.

O quarteto, com um Ricardo Gallo (piano) encarregado de gerar remoinhos “ceciltaylorianos” e com Tom Blancarte (contrabaixo) e Kevin Shea (bateria) a alimentar incansavelmente a fornalha, tritura, calcina e reinventa o património do jazz. “All” (a partir de “All the Things You Are”) e “What” (a partir de “What Is This Thing Called Love”), “For ICP” (dedicado à Instant Composers Pool, a irrequieta big band holandesa) são labirintos angulosos e quebrados por voltas inesperadas, um bebop fractal em que, nos interstícios de acordes familiares, emergem arquitecturas desconhecidas, que por sua vez revelam ser compostas por estruturas mais pequenas – e assim até ao infinito. Só em “Latticework” (a partir de “Lush Life”, de Billy Strayhorn, e “Duke Ellington’s Sound of Love”, de Mingus) o fervilhar acalma e a beleza melódica e a melancolia vêm ao de cima. De resto, a hora escoa-se numa esgarabulha incessante, sem pausas para respirar entre temas – o que pode tornar-se cansativo. Mas uma escuta atenta pode revelar os encantos deste bebop mutante tocado por quatro músicos sobredotados, mas que se diria sofrerem de síndrome de Tourette.

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