Time Out Lisboa review by José Carlos Fernandes


Hugo Carvalhais – Nebulosa (CF 201) ****
O jazz português anda em ebulição, os músicos atingem a maturidade cada vez mais cedo, a edição segue em ritmo inaudito e as boas surpresas sucedem-se – mas esta é a mais fulgurante estreia de um jazzman português de que tenho memória. Ao trio portuense formado por Carvalhais em contrabaixo, Gabriel Pinto em piano e sintetizador, Mário Costa na bateria, junta-se o convidado Tim Berne, um saxofonista na linha da frente do jazz desde os anos 80 e líder dos grupos Bloodcount, ScienceFriction, Hard Cell ou Big Satan. Que Berne não tenha declinado dar o seu contributo, diz muito sobre o nível do trio. Mas que Berne não monopolize o protagonismo e que o que salte aos ouvidos seja a atmosfera, coesão e dramatismo de cada peça é ainda mais digno de admiração.
Nebulosa é feito de melodias interrompidas, ritmos entrecortados, tempos que se suspendem, crepitações de radiação, distribuídos por dez temas cuidadosamente arquitectados por Carvalhais, mas com amplo espaço para improvisação. “ Nebulosa Part V” é o único trecho em que pulsa um swing “ ortodoxo” , mas o sintetizador de ficção científica deixa claro que não
estamos no Village Vanguard, nem sequer no planeta Terra. “ Impala” podia ser uma balada jazz – mas captada por um radiotelescópio em Andrómeda. “ Nebulosa Part III” começa com piano intimista e deambulante, mas o resto do quarteto entra sem aviso e instala uma tensão tremenda, com Berne a consumir-se em línguas de fogo. O CD termina em trio, num tema feito de éter e
algumas notas rarefeitas.

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