Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes


Jaruzelski’s Dream – Jazz Gawronski (CF 211) ****
Acautele-se quem, animado das melhores intenções, julgue estar a adquirir uma amostra representativa do “novo jazz polaco”. Os três burlões por trás do nome Jaruzelski’s Dream são italianos e o seu conhecimento da Polónia é feito de clichés. Mas a música é encantadoramente insana. Pelo menos para quem aprecie humor cáustico e jazz descarnado.
O disco dá particular atenção ao Santo Padre (supõe-se, atendendo ao contexto polaco, que seja João Paulo II), através de “Pimpin’ the Papamobile” e “Sei Forte Papa”, cujo tom sarcástico e citação trocista de “New York, New York” justificam excomunhão imediata. A faixa dedicada à virgem-mártir Maria Goretti (“Maria Goretti Contro Tutti”) não os tornará mais simpáticos aos olhos da Santa Sé – a sorte do trio de iconoclastas é que na Congregação para a Doutrina da Fé só se ouve cântico gregoriano e smooth jazz.
Jazz Gawronski homenageia também polacos que se distinguiram nos campos da química (Marie Curie), do futebol (Zib Boniek, que é dedicatário de alguns segundos de thrash jazz ao estilo dos Naked City) e da política (“The Amazing Kaczinski Twins”, entretanto reduzidos a metade). “Soulidarnosc” abre com duo de bateria e SmartPhone e prossegue com gargarejos de sax que degeneram em punk jazz. “Polonium 210” é suficientemente radioactivo para justificar evacuação num raio de 500 metros. Os efeitos da vodka são audíveis no hardbop trôpego de “Tre Nipoti e un Commodoro”.
Piero Bittolo Bon (sax e Smartphone), Stefano Senni (contrabaixo) e Francesco Cusa (bateria) não são o sonho do general Jaruzelski – são o seu mais negro pesadelo. Jaruzelski, com a aprovação do Politburo da ortodoxia jazz, tê-los-ia enviado de bom grado para um campo de reeducação.

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