Time Out Lisboa reviews by Jose Carlos Fernandes


Luxo em tempo de crise

Já aqui se deu conta de três discos essenciais de músicos portugueses incluídos nos recentes lançamentos da Clean Feed. Queiram por favor adicionar à lista de “bens de primeira necessidade” mais três items

Corro o risco de me repetir, mas no meio da cacofonia geral é necessário insistir: a lisboeta Clean Feed é hoje a mais importante editora de jazz do mundo. Pelos riscos que assume, pela amplitude estética e geográfica do catálogo, pela quantidade e qualidade média das edições.

Rudresh Mahanthappa e Steve Lehman são duas estrelas ascendentes do saxofone alto e dois dínamos criativos e a ideia de ter ambos na mesma banda parece boa demais para ser verdade. Mas é isso que acontece nos Dual Identity, a que se juntam Liberty Ellman (guitarra), Matt Brewer (contrabaixo) e Damion Reid (bateria). O quinteto esteve o ano passado na Culturgest, mas antes passou por Braga, em cujo festival de jazz foi registado este Dual Identity (*****). Os que se queixam de que “o jazz moderno já não swinga” deviam abrir as orelhas e os poros a esta rítmica convulsiva, complexa e poderosa, que não deixa de ser sensual apesar do rigor matemático e que tanto serpenteia como uma pitão (“Circus”) como se reinventa como drum’n’ bass esquizóide (“1010”). Sobre os ritmos intrincados, os dois saxes perseguem-se como dois besouros furiosos, rodando em torno um do outro, num circo aéreo que faz a Red Bull Air Race parecer um vôo charter carregado de turistas reformados.

O contrabaixista Chris Lightcap remodelou o seu grupo Bigmouth, com a substituição de Bill McHenry por Chris Cheek (sax) e a adição de Craig Taborn (teclados) e Andrew D’Angelo (sax, em três temas), mantendo-se os habituais Tony Malaby (sax) e Gerald Cleaver (bateria). O elenco estelar e o título do CD, DeLuxe (*****), sugerem despesismo e ostentação, mas não há aqui nada de supérfluo. Com uma sonoridade poderosa e cheia de autoridade, Lightcap comanda as operações ao longo de sete peças de sua autoria, de personalidade bem variada. Embora também haja lugar à introspecção (“Year of the Rooster”) domina a exuberância e a pulsão rítmica. E sempre que se juntam os três saxes tenor, o indicador de temperatura vai ao vermelho: até “Silvertone”, que começa de forma banal, vai aquecendo gradualmente e acaba com Malaby, Cheek e D’Angelo a soprar como se não houvesse amanhã.

De atmosferas bem diferentes trata Spiritual Lover (*****), do trio liderado pelo contrabaixista John Hébert, que conta com o camaleónico e omnipresente Gerald Cleaver (bateria) e o inventivo Benoît Delbecq (teclados). Entra-se num mundo de reverberações e refracções, como se o clássico trio com piano tivesse passado para o outro lado do espelho – se o Gato de Cheshire gosta de jazz, é este o seu combo favorito. “Spiritual Lover”, um tema de Andrew Hill, é atacado por Delbecq com sonoridade ácida de guitarra distorcida e converte-se num sonho febril e o standard “Here’s That Rainy Day” é desfigurado até ficar irreconhecível. Se “Cajun Christmas” e “Le Rêve Eveillé” são tão rarefeitos e delicados que uma rajada os poderia levar, “50808” é um ímpeto irresistível de bateria e contrabaixo, enquadrado por piano anguloso, e “Ando” é um fervilhar de ritmos ensimesmados e emaranhados. Delbecq, desdobrando-se por piano “normal” e preparado e diversos teclados, tece vasta gama de texturas e coloridos.

Três CDs bem diferentes entre si, que contrariam rumores e alarmes infundados sobre a periclitante saúde do jazz.

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