Time Out Lisbon Interview by Jose Carlos Fernandes


A barreira dos 200
Há três anos a Time Out entrevistou Pedro Costa, mentor da Clean Feed – o pretexto foi a distinção desta editora de jazz lisboeta com um importante galardão internacional e a edição (a vários títulos improvável) do disco nº100. Quisemos saber que explicações tem ele a dar, agora que ultrapassou o disco nº200.

A Clean Feed (CF) já se habituou ao reconhecimento por tudo o que é revista e site de jazz pelo mundo fora, mas constou-me que em 2010 tiveram uma visita vinda de Belém….
É verdade, tivemos em Junho a visita do Presidente da República, como parte do Roteiro da Juventude. Foi um reconhecimento muitíssimo importante e que muito nos honrou. Essa visita teve imensa cobertura por parte dos media e isso é muito importante para nós como editora, já que a maior fatia do nosso sucesso revela-se no estrangeiro, onde somos alvo de inúmeras distinções: All About Jazz e Jazz Journalists Association à cabeça, mas também revistas como a Downbeat, Jazztimes, Jazz Magazine.
Em que países é distribuída a CF?
Espanha, Bélgica, Japão, Noruega, Alemanha, Polónia, Suíça e França e temos lojas a quem vendemos directamente nos EUA, Inglaterra, Austrália, Honk Kong e China.
Em média, quais os países responsáveis por maior percentagem de vendas?
EUA, depois Alemanha e Polónia. O Japão já foi óptimo mas desde há uns dois anos e devido a mudança de pessoal no nosso distribuidor, caiu muito.
E como correm as coisas por cá?
O mercado português funciona bem apenas em relação a alguns artistas nacionais como Bernardo Sassetti, Carlos Bica, Júlio Resende, Carlos Barretto e pouco mais. Quanto a CDs de músicos estrangeiros representa muito muito pouco, infelizmente.
Uma das coisas que distingue a CF de outras editoras independentes de jazz é o carácter internacional do catálogo: há projectos vindos dos EUA, Escandinávia, Holanda, Alemanha, França, Suíça, Itália, todas as Grandes Potências do jazz estão representadas…
A missão da CF é documentar uma época (ou várias, dependendo do tempo que conseguirmos aguentar num país como este) nesta música, seja qual for a proveniência. Ao princípio achava que o facto de estarmos em Portugal seria uma desvantagem, por não estarmos associados a uma cena forte como Nova Iorque, Chicago ou Estocolmo, mas hoje em dia vejo isso como a nossa maior vantagem. Não estarmos ofuscados por uma cena forte permite-nos ver mais além.
Qual é a representação do jazz nacional?
Cerca de 23% do nosso catálogo é constituído por músicos portugueses.
Imagino que sejam inundados de propostas de músicos…
Sim, recebo mensalmente para cima de 100 CDs de propostas.
E és tu, sozinho, que tens de ouvir esses 100 CDs/mês e decidir?
Basicamente sou eu que faço a primeira triagem, quando encontro alguma coisa digna de registo passo-a ao Travassos e ao Hernani para me darem a sua opinião. Muitas vezes, quando não tenho dúvidas, avanço a solo.
Podes levantar o véu sobre algumas das novidades mais “bombásticas” para 2011?
Posso anunciar um octeto com muitas cordas do saxofonista Tim Berne já em Janeiro. É uma gravação de 1997 que ficou na prateleira de uma rádio alemã e que só agora o Tim teve acesso e nos propôs editar. Desse grupo fazem parte Baikida Carroll, Michael Formanek, Jim Black, Chris Speed, Erik Friedlander, Marc Ducret e Dominique Pifarély.
Uma gravação com um elenco desses na prateleira?! E que mais?
Vamos também editar o novo trabalho dos Mostly Other People Do the Killing, um quinteto do trompetista Ralph Alessi com Ravi Coltrane nos saxofones, um noneto do Tony Malaby com arranjos e condução de Kris Davis, um novo CD do Júlio Resende, desta vez em trio, um dueto do Tim Berne com o Bruno Chevillon.
E que diabo quer dizer Clean Feed, pode saber-se?
É um termo técnico utilizado em vídeo e que significa alimentar um sinal puro. Foi o Rodrigo Amado que trouxe este nome quando se juntou a nós em 2001. Aprecio-o bastante já que é uma declaração de intenções, apresentar a música da forma mais pura, sem nenhum tipo de manipulação da nossa parte. Julgo mesmo que este é um capital importante que temos com os músicos: a liberdade que lhes damos de apresentarem a sua música sem interferências. Não somos os que pagamos melhor mas se calhar somos os que lhes damos mais liberdade, afecto e feedback acerca do seu trabalho.

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