Time Out Lisbon review by José Carlos Fernandes


Júlio Resende – Assim Falava Jazzatustra (CF 158 )
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Da Alma foi um bom começo, mas adivinhava-se que Resende poderia ir mais longe, pois enquanto o piano, o contrabaixo e a bateria puxavam claramente em frente, o saxofone parecia estar preso a estruturas convencionais.
No novo quarteto de Resende esta discrepância foi resolvida: o novo titular do saxofone, Perico Sambeat, rema no mesmo sentido que os parceiros e o contrabaixista Ole Morten Vagan e o baterista Joel Silva são ainda mais irrequietos que os seus antecessores. O facto de o disco ter sido gravado ao vivo – na sala Nietszche da Fábrica Braço de Prata, o que explica o título –contribui provavelmente para a atmosfera de intensidade que nele impera.
O desafio a que Resende alude nas notas de capa de Assim Falava Jazzatustra foi superado com distinção: o seu opus 2 é assertivo, ousado e seguro da sua identidade, mesmo quando passa por ambientes tão diversos como o “kuduro progressivo” de “Sakatwala” (uma fornalha rítmica de sabor africano, com excelente solo de Vagen), o pop a deslizar para a Twilight Zone de “Ir e Voltar” (com a voz de Manuela Azevedo, dos Clã), o irresistível ímpeto rítmico de “Don’t” (com Sambeat ao rubro) e de “Boom!” e até pela miraculosa recuperação do estafado “Shine On You Crazy Diamond”, dos Pink Floyd, que nas mãos de Resende (sem o resto da banda) ressuscita como melancólica balada do American Songbook. Só “Caixa Registadora” fica um pouco abaixo dos parceiros: após início de recorte monkiano, acomoda-se ao molde de uma escaldante sessão hardbop de início dos anos 60.
O mundo passa bem sem Übermenschen (os super-homens nitzscheanos tendem a arranjar sarilhos a toda a gente), mas o Überjazz é sempre bem-vindo. Pois como diz Resende, “a essência do jazz sempre foi a de se ultrapassar a si próprio”.

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