Time Out Lisbon reviews by José Carlos Fernandes


O Milagre da Rua do Alecrim
Crise? Na Clean Feed não se sabe o que quer dizer esta palavra: os discos sucedem-se e o leque de artistas e correntes estéticas não pára de se alargar

“A mais prolífica e ousada editora de jazz deste novo século”. É assim que o prestigiado site All About Jazz se refere à Clean Feed, que já tinha distinguido como uma das melhores editoras de jazz de 2007. Os encómios – mais saborosos por virem da América – justificam-se, pois o catálogo da editora da Rua do Alecrim já ronda os 170 discos e acaba de ser ampliado com uma mão-cheia de novos títulos.

Apesar do seu talento e reputação e de se rodear invariavelmente de músicos de elite, o saxofonista norte-americano Marty Ehrlich possui uma discografia imprevisível, que oscila entre o inspirado (Just Before the Dawn ou Malinke’s Dance) e o corriqueiro. Things Have Got To Change (****), que marca a estreia deste grande jazzman na Clean Feed, pertence ao primeiro grupo. Este seu Rites Quartet (gravado em Lisboa, de regresso de um concerto em Ponta Delgada) dificilmente poderia falhar, pois conta com James Zollar na trompete, Erik Friedlander no violoncelo e Pheeroan akLaff na bateria. Friedlander é o mais surpreendente (para quem não o conheça de outras andanças), impelindo o grupo num pizzicato elástico ou extraindo lamentos pungentes com o arco. akLaff tem a arte de conciliar potência e subtileza, gerando propulsão e swing sem obscurecer os volteios do violoncelo. Além das composições do líder, há três peças de Julius Hemphill – e não creio que alguém resista a ser hipnotizado pela que fecha o disco, a mítica “Dogon AD”.

Qualquer grupo que tenha como baterista Tom Rainey ou John Hollenbeck pode considerar-se afortunado. Ter Rainey e Hollenbeck é ganhar o Euromilhões. É isso que acontece em Voladores, do saxofonista Tony Malaby (****). Malaby, que já marcara presença na Clean Feed com Tamarindo (2007), surge agora o seu quarteto Apparitions, com o contrabaixo seguríssimo de Drew Gress e os dois super-bateristas já mencionados. Hollenbeck, que toma o lugar que no disco de estreia foi de Michael Sarin, não se limita à bateria, dispersando-se por marimba, vibrafone, xilofone, glockenspiel, melódica e utensílios de cozinha. Não se espere desta dupla o estardalhaço abrutalhado e testosterónico que, no jazz-rock, costuma estar associado a baterias dobradas – em vez disso há difusas e intrigantes nuvens percussivas que, com o avançar dos temas, se acastelam e podem gerar tornados furiosos.
Os “Voladores” do título são aqueles mexicanos que giram, de cabeça para baixo e muitos metros acima do solo, suspensos por cordas de um mastro, evocando rituais pré-colombianos de celebração da Terra e das estações. Este Voladores permite a experiência inebriante de girar pelo céu pendurado pelos pés, sem abandonar o conforto do sofá.

O quarteto Parallels do saxofonista Nicolas Masson é inteiramente suíço, mas desmente frontalmente a boutade que apresenta o relógio de cuco como único contributo helvético para a civilização. Em vez de aprazíveis paisagens alpinas, Thirty Six Ghosts (*****) oferece poderosos grooves urbanos, com raízes rock e funk e afinidades com o M-Base, alimentados por Patrice Moret (contrabaixo) e Lionel Friedli (bateria). Pese embora o mérito de todos os intervenientes, quem “rouba o espectáculo” é Colin Vallon, um mago do Fender Rhodes, que tanto urde teias vaporosas como alimenta ritmos endemoninhados. Masson diz-se influenciado por Messiaen e Rage Against The Machine (e tudo o que está pelo meio) e se os segundos não são alheios às faixas mais “musculadas”, o primeiro paira sobre as águas negras, lisas mas inquietantes, de “Le Phasme”.

O trio do acordeonista Will Holshouser com Ron Horton (trompete) e David Phillips (contrabaixo), que já gravara dois discos muito recomendáveis para a Clean Feed, Reed Song e Singing to a Bee, associou-se, por inspirada sugestão da editora, ao pianista Bernardo Sassetti. Felizmente não se ficaram pelo espectáculo ao vivo nos Dias da Música de 2008 e deram um salto aos estúdios Valentim de Carvalho, de onde saiu este Palace Ghosts & Drunken Hymns (****). O disco abre com Carlos Paredes e uma “Dança Palaciana” que perdeu todo o carácter palaciano e volteia, ébria, num bar de uma Nova Orleães submersa por mais um furacão calamitoso. “Dance of the Dead” são os Penguin Cafe Orchestra de visita ao México, “Narayama” uma belíssima paisagem que emerge da bruma, “East River Breeze” tem walking bass dançante e uma trompete que narra as agruras da vida num lirismo desbragado. Há afinidades sonoras com o saudoso grupo Charms of the Nightsky, de Dave Douglas, mas o espectro emocional de Palace Ghosts & Drunken Hymns é mais amplo e à melancolia soma tons rústicos e circenses. Há momentos em que não se estranharia se Tom Waits entrasse em cena, acusando o piano – e restantes instrumentos – de ter andado a beber.

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