Bodyspace – Nate Wooley – (Dance to) The Early Music


By Nuno Catarino

O trompetista Nate Wooley já não deverá precisar de apresentações: nos últimos anos afirmou-se definitivamente como um dos mais notáveis exploradores do seu instrumento da actualidade. Músico com uma riquíssima diversidade de ideias e vastos recursos técnicos, o americano vem construindo um percurso musical lato e tem estabelecido uma especial ligação com Portugal.

Essa ligação é confirmada pela edição de vários discos nas editoras lusas Clean Feed (em duo com Joe Morris, com o seu sexteto, em várias formações) e Creative Sources (Wrong Shape To Be A Storyteller), por ter gravado com o grupo lisboeta RED Trio e, mais recentemente, pela formação do trio Malus (com o baterista Chris Corsano e o contrabaixista português Hugo Antunes). Já actuou em diversos concertos e festivais e na sua mais recente passagem por Portugal interpretou uma peça da compositora Éliane Radigue, em concertos na ZDB em Lisboa e na Culturgest Porto.

Com uma linguagem que atravessa universos, indo do jazz mais cristalino até à improvisação pura e à experimentação mais rugosa, Wooley já tinha mostrado o seu espírito aberto pela diversidade da música que vinha trabalhando, mas a proposta apresentada no seu disco mais recente não deixa de surpreender os seus ouvintes habituais. Neste (Dance to) The Early Music, gravado ao leme do seu quinteto, Wooley resolveu interpretar exclusivamente a música de Wynton Marsalis.

Se Marsalis cedo se afirmou como extraordinário instrumentista, acabou também por cimentar fama como defensor da tradição do jazz, com uma visão do jazz habitualmente classificada de retrógrada e conservadora. Neste disco ouvimos assim um dos mais inovadores trompetistas da actualidade a regressar ao seu herói da adolescência. Wooley acaba por se focar no repertório da fase inicial (a tal “The Early Music” do título), numa escolha que é justificada por motivos sentimentais, com especial atenção a três discos: Wynton Marsalis (1981), Black Codes (From the Underground) (1985) e J Mood (1986).

Assume Wooley: este disco não é uma homenagem, não é uma revisão irónica, não é um manifesto social ou político. Isto é apenas música, simplesmente – mas não simples, muito menos simplista. Para Wooley é um regresso à música que o fazia feliz quando adolescente; para nós é uma interessante revisão pessoal de uma música que, partindo do seu cariz cristalizado de clássico, passa a ganhar nova vida com a natural toada de contemporaneidade.

Wooley não se limita a tentar imitar Marsalis. Não tenta mimetizar o som do trompete, nem tenta repetir cada tema – aliás, a instrumentação de cada composição não repete o formato das gravações originais, os arranjos são trabalhados de forma a incluir a todo o quinteto de Wooley. Assim, ao trompete do líder junta-se uma trupe constituída pelos seus colaboradores regulares: Josh Sinton (no clarinete baixo), Matt Moran (no vibrafone), Eivind Opsvik (no contrabaixo) e Harris Eisenstadt (na bateria). Esta mesma formação já tinha editado em 2011 o óptimo (Put Your) Hands Together; em 2013 foi editado (Sit In) The Throne of Friendship, num sexteto com a inclusão da tuba de Dan Peck.

Dos nove temas que compõem o álbum, seis são revisões de composições de Wynton Marsalis, sendo os outros três temas originais de Wooley, evidentemente inspirados na obra wyntoniana (e coerentes no contexto do disco). Partindo desta base, torna-se difícil escutar este disco sem regressar também à escuta das gravações originais. A comparação seria sempre desleal para qualquer músico em confronto, mas é inevitável assumi-la.

A verdade é que, sem emular o pináculo da eficiência e excelência sonora da música de Marsalis, o grupo supera as expectativas que se apresentavam na casa de partida. Sem assumir essa vontade de copiar, o trompete de Wooley acaba por soar próximo do som de Marsalis – mais quente e limado, nunca o tínhamos ouvido assim. Nesta revisão musical, mais do que o trompete do líder, será o grupo, como todo, a assumir o papel de elemento distintivo, ao incrementar a sua dinâmica contemporânea.

Será verdade que o clarinete baixo de Sinton soa menos espectacular (seria difícil não empalidecer na comparação com o saxofone de Branford). Por outro lado, o vibrafone de Moran acaba por acrescentar novas cores, que não existiam no original (e com essas pinceladas os temas ganham muito). A dupla rítmica Opsvik/Eisenstadt não é uma locomotiva, mas cumpre com distinção.

O grupo olha para trás, escavaca o passado e, durante o processo, exibe a sua refinadíssima qualidade técnica, construindo um jazz sem mácula. A música que serviu de base, já bem antiga, mostra que consegue resistir à actualização para o século XXI. Mais do que uma experiência de confronto, de desafio, trata-se de música simples. É uma espécie de regresso a casa. Um encontro puro de um instrumentista que na sua plena maturidade artística regressa à música que o fez crescer. Um disco desafiante, inesperado e fascinante.

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