Expresso | The Angelica Sanchez Trio – Float the Edge ****


By João Santos

Não aponta propriamente para aí, o seu título. Mas há momentos magníficos neste “Float the Edge” que se assemelham aos movimentos de fluxo e refluxo das massas de água à superfície da terra, com os seus constituintes básicos sob a ação de campos gravitacionais distintos. São instantes em que se indicam direções muito diferentes uma da outra, claro, com Angelica Sanchez interessada em melodia, por exemplo, enquanto, em simultâneo, Michael Formanek se concentra mais em harmonia ou Tyshawn Sorey no ritmo, sem que se chegue bem a materializar a estrutura que determina cada peça, nem, por outro lado, se distinga qualquer fricção entre os seus elementos. A pianista apresenta-o deste modo: “Na qualidade de trio, muito do que fazemos é levar as coisas ao limite, tomando o risco de mergulhar no vazio. Quando temos êxito parece que estamos a flutuar – é belíssimo.” Daí, quiçá, a evocação de certos arquétipos: ‘Shapishico’ é uma figura metamórfica do folclore peruano capaz de atrair transeuntes para o coração da selva amazónica; ‘Substance Of We Feeling’ refere-se ao alimento espiritual do Império de Canopus, criado por Doris Lessing no alegórico “Shikasta”; ‘Hypnagogia’ chama a si o fenómeno do sonho lúcido, ‘What the Birds Tell Me’ o canto dos pássaros, etc. Isto é, Sanchez vai de encontro às conclusões de alguns estudos em neurociência: para o que agora interessa, que a consciência é muito mais passiva do que aquilo que julgamos; que os seus conteúdos ativos vivem sobretudo de estímulos exteriores que iludem o nosso controlo. O que apenas reforça o profundo quadro ético em que opera, no qual incerteza, involuntariedade e imediatez contribuem tanto quanto o seu inverso para o resultado final: é “estar no mundo, mas não ser dele”, como se diz no sufismo, que Lessing praticava, embora aqui se tenha o livre-arbítrio como fundamento. De facto, o melhor jazz nunca foi de outra maneira.

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