Jazz.pt – Black Bombaim & Peter Brötzmann (Shhpuma)


By Gonçalo Falcão

Este disco começa por ser uma imagem muito interessante do ambiente editorial de uma nova geração, muito pouco preocupada com os dichotes nacionais, descomplexada em relação a Portugal e movida por uma paixão só: a música. É isso que explica que a Clean Feed, através da sua subsidiária Shhpuma, tenha estabelecido para a edição deste disco uma parceria com uma editora de pop-rock, a Lovers & Lollypops.

Na jazz.pt não é necessário puxar dos galões da Clean Feed, pois todos os leitores já saberão que é reconhecida internacionalmente como uma das mais importantes da actualidade. Já a Lovers & Lollypops poderá ser menos familiar para os amantes restritos ao jazz, mas o certo é que esta “label” portuense tem editado da melhor música que se faz em Portugal e, tal como a CF, embala-a magnificamente. Focada no rock “indie”, edita os Black Bombaim, um dos grupos portugueses com maior notoriedade internacional, e ainda nomes como Heat, Torto, Jibóia e outras.

Para este novo projecto, Pedro Costa e Travassos propuseram Peter Brotzmann aos Black Bombaim e vice-na-verdade-versa, sendo esta a gravação resultante. De registar a confiança que muitos músicos cimeiros da cena jazzística internacional têm na Clean Feed, aceitando as suas sugestões de associações musicais, sendo Pedro Costa um dos raros programadores nacionais que estão em posição de o poder fazer.

Os Black Bombaim tocam um rock denso, cheio, que não “rolla” ,parecendo antes progredir estaticamente. É o que se convencionou chamar “stoner rock”: um som pesado, espesso, com a cadência lenta de uma viagem por estradas nacionais, cujo destino é viajar. Não têm “vocalista” (convidam por vezes) e por isso o território é o ideal para o som intenso de Peter Brötzmann, que faz qualquer saxofonista de rock parecer o Noddy. Assim, é sobre as bases roqueiras do trio de Barcelos que são improvisados os solos do septuagenário alemão.

A música gritada por Brötzmann ainda soa urgente, não permitindo uma audição passiva. O rock cria um padrão repetitivo sobre o qual os solos se desenvolvem e dá-lhes ainda mais carga e força. O saxofone é aqui legitimamente um metal. Nunca um sopro. A faísca para a rebelião de “Machine Gun” (1968) já se deu, mas a mudança ainda é necessária e Brötzmann não desiste de foguear, como se o saxofone fosse a fonação do grito de mudança.

Gravado ao vivo nos estúdios Sá da Bandeira, este é um disco invulgar que junta dois mundos musicais, duas editoras, duas gerações; músicos de mente e espirito aberto com vontade de descobrir coisas novas. A capa do CD anota quatro temas (quatro partes), mas o disco tem cinco. Ainda bem, porque a música é excelente.

http://jazz.pt/

Buy

+ There are no comments

Add yours