Jazz.pt – Eric Revis Trio – Crowded Solitudes *****


By Gonçalo Falcão

O contrabaixista americano Eric Revis vem de uma escola notável (Branford Marsalis, Steve Coleman, Orrin Evans) e grava em seu nome para a Clean Feed desde 2012. O seu trio regressou a estúdio com música nova, desta vez com Gerard Cleaver na bateria, um banco que nos grupos anteriores foi ocupado por Nasheet Waits e por Andrew Cyrille. Kris Davis, no piano, faz parte do plano em andamento para a criação de uma música nova, que resolve de forma brilhante a ligação entre estruturas definidas e improvisação. Esta bipolaridade entre abstracção e sintonia faz da sua arte um caso exemplar de desafio a processos de indexação estilística. Se quiserem colocar a questão de forma corriqueira, o Eric Revis Trio é um grupo que podia tocar no festival de jazz de Guimarães e no dia seguinte no Jazz em Agosto e ser aclamado em ambos.

A audição deste novo trabalho gravado num estúdio nova-iorquino, em 2015, revela diferenças em relação aos discos anteriores e ideias mais definidas sobre a sua música. A forma de juntar o vocabulário tradicional do jazz com a improvisação total é agora bastante mais interessante, revelando um músico com ideias muito claras sobre um novo caminho no jazz actual. A visão original de Revis é apresentada através das suas composições, mas também é ensaiada com um tema de Paul Motion e outro de Greg Osby.

A primeira impressão extraordinária é deixada pelo piano de Kris Davis: uma forma de tocar incrível, cheia de energia, que evoca Cecil Taylor e Jelly Roll Morton em simultâneo, com a tranquilidade de Bill Evans. No início parece ser ela o centro de todo o discurso. Mas com o evoluir do primeiro tema fica claro que não há, de facto, um líder e que a condução da música é partilhada.

Revis não assume o papel tradicional do contrabaixo, de suporte rítmico e harmónico: está na frente, a construir frases musicais que parecem tiradas de conversações, transcrevendo o som falado (processo já usado por Hermeto Pascoal ou Frank Zappa, por exemplo). É normalmente ele que inicia os temas, instalando as ideias para um trio que toca atentíssimo, capaz de construir coerência nos momentos mais abstractos. Gerard Cleaver encaixa perfeitamente nas ideias do líder e responde extraordinariamente nas improvisações.

Mais um grande disco da Clean Feed que, 15 anos e 400 discos depois, continua a publicar gravações de enorme qualidade, de músicos cimeiros do circuito mundial, com excelente som, produzidas propositadamente para a editora, com uma visão muito abrangente do jazz mundial (americano e europeu). Nós, portugueses e amantes do jazz, agradecemos penhoradamente e orgulhamo-nos com o facto de uma das maiores e melhores editoras de jazz da actualidade falar a nossa língua.

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