Jazz.pt | Flavio Zanuttini & Opacipapa – Born Baby Born *****


By Gonçalo Falcão

Primeiro foi o jazz nórdico que nos foi revelado pela portuguesa Clean Feed, fazendo-nos perceber que, apesar do gelo, os escandinavos jazzam que é um desaforo. Mais recentemente chegou o italiano pela mesma mão, fazendo-nos igualmente perceber a qualidade que andava fechada na bota da Europa. A Itália pode ser um caos político, mas já foi uma das grandes referências culturais do Ocidente e tem tudo para continuar a ser. O cinema italiano é incontornável, a música italiana é gigantesca, e são-no ainda a pintura, a escultura, o teatro e a literatura, apesar de pouco se fazer para a sua exportação – o contrário do que fazem os ingleses, que vendem tudo e mais alguma coisa, até programas de culinária, apesar de a cultura gastronómica britânica se resumir a um ensopado, uma tarte e comida industrial processada. Por isso, é de saudar este desmatar da floresta italiana que está a ser feito pela editora da Parede.

Born Baby Born” apresenta-nos o trompetista Flavio Zanuttini, mas não só: dentro dos Opacipapa está um baterista incrível,Marco D’Orlando, capaz de produzir um tipo de acompanhamento melódico grave como se houvesse um contrabaixo, e o altista Piero Bittolo Bom, que também agrada. Temos, portanto, um trio invulgar: uma secção rítmica constituída apenas por uma bateria e dois sopros, sax e trompete, na frente.

Melodias, melodias, melodias: os italianos andam nisto há muitos séculos e Zanuttini sabe escrever canções atrás de canções sem que fiquem imbecis, lamechas ou adocicadas. A música é notável, parecendo originalmente escrita para uma grande orquestra, cheia de canções, “swing” e contrastes, mas depois transposta para trio… É quase como transpor Wagner para flauta piccolo. E nesta versão crua, reduzida, encontramos uma enorme beleza, pois os intervenientes conseguem dar uma dimensão inesperada à música. Sabemos que, nos dias que correm, o tamanho de um grupo é importante: por questões económicas, é cada vez mais complicado viajar com grandes orquestras ou formações alargadas. Nesta redução não se perde nada, ganha-se. A surpresa da instrumentação e o modo inteligente como os músicos arranjam os temas e os tocam fazem com que o formato funcione na perfeição. De algum modo, o que aqui vem faz-nos lembrar a beleza do trio de John Zorn em “Songs for Lulu”, com saxofone, trombone e guitarra.

Esta “big band” de três toca canções atrás de canções que rapidamente entram na cabeça para se tornarem cantáveis e interrompe-as com pequenas improvisações num “zapping” muito atraente.

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