Jazz.pt – Joe McPhee / Jamie Saft / Joe Morris / Charles Downs – Ticonderoga ****


By Nuno Catarino

Há quase 50 anos, John Coltrane gravava, ao vivo, um dos seus discos que ficariam para a posteridade: “Live at the Village Vanguard Again!” (edição Impulse!, de 1966). Já sem McCoy Tyner nem Elvin Jones, Coltrane actuou no histórico clube nova-iorquino com um grupo em que se incluía a sua esposa Alice Coltrane no piano e Rashied Ali na bateria. No contrabaixo mantinha-se o fiel Jimmy Garrison e juntavam-se ainda dois convidados: o saxofonista Pharoah Sanders e o percussionista Emanuel Rahim. Esse disco documenta a fase final da carreira de Coltrane, com o grupo a carburar a toda a intensidade.

Foi uma conversa à volta deste disco que deu a Joe Morris e Jamie Saft, conhecido sobretudo pelas suas colaborações com John Zorn, a ideia de juntar o quarteto que gravou este novíssimo “Ticonderoga”. Morris e Saft decidiram criar uma música original inspirada por esse disco histórico e para tal convidaram mais dois músicos, ambos veteranos, ambos com um passado rico ligado à cena free jazz: o versátil Joe McPhee, aqui unicamente nos saxofones tenor e soprano, aproximando-se da estética coltraneana, e Charles Downs, anteriormente conhecido como Rashid Bakr, que tocou com Jemeel Moondoc e Cecil Taylor, na bateria. Saft, teclista que habitualmente se serve de diversos teclados eléctricos, está aqui exclusivamente focado no piano de cauda. E Joe Morris, que nos últimos anos tem apresentado gravações de guitarra eléctrica, regressa ao seu outro instrumento, o contrabaixo.

Este quarteto clássico desenvolve uma música aberta, assente na improvisação pura e livre, em que a relação instrumental vai sendo construída de forma natural, tranquila e fluída. O disco arranca com a percussão hipnótica, quase tribal, de Downs, o saxofone tenor de McPhee entra tímido, e chega Morris, que assume a liderança. Há uma discussão entre saxofone e contrabaixo, só depois entrando o piano de Saft (já tendo passado dois minutos e meio), que se deixa levar pela toada tumultuosa já instalada. O grupo vai alimentando essa tensão, numa construção a quatro vozes, prolongando esse diálogo musical até aos nove minutos (o mais breve dos quatro temas do disco).

O segundo tema, “Simplicity of Man”, arranca com saxofone e contrabaixo a voar baixinho. O piano chega suavemente, tal como a bateria. A música evolui rapidamente: o quarteto promove crescendos e o saxofone de McPhee assume o protagonismo inevitável, revelando toda a sua ferocidade. Saído da sombra de Zorn, Saft aproveita para se exibir como um vendaval, fazendo do piano uma torrente que enche o espaço todo – e ainda vai às técnicas menos tradicionais, explorando directamente as cordas do interior do seu instrumento. Quando todos os outros amansam, a bateria de Downs contribui com um interessante solo para fechar a peça.

Em “Leaves of Certain”, a terceira faixa, Joe McPhee passa para o saxofone soprano. Com a mesma garra do costume, lança as faíscas e arrasta toda a gente consigo. O tema mais longo, “A Backward King”, fecha o disco com os seus quase 20 minutos. O piano domina o início, com a música a crescer em lume brando, sem pressas, sem convulsões. A meio desse último tema, McPhee regressa ao saxofone tenor, primeiro discursando calmamente, depois acendendo a chama, a provocar a costumeira turbulência.

Trabalhando um diálogo sem rede, nem sempre os quatro músicos estão de acordo: também há choque e confronto. Esta música é marcada pela energia, pela alta intensidade, e há, sobretudo, e de forma permanente, uma óptima dinâmica colectiva. O quarteto de Morris, Saft, McPhee e Downs parte de bases do passado (a tal matriz free jazz) para criar uma música real e actual. A formação presta uma homenagem da melhor forma: reverencia o passado sem esquecer o presente.

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