Jazz.pt – LUME – Xabregas 10


By Gonçalo Falcão

O novíssimo disco do Lisbon Undergroung Music Ensemble é excelente, desde logo por existir. Não é possível imaginar o esforço e a persistência que devem requerer a Marco Barroso o trabalho de manter unido e a funcionar um grupo de 16 músicos que consegue entregar com enorme rigor e qualidade a sua música. Assim, antes sequer de colocar o disco na gaveta do CD, está a alegria de saber que o LUME continua ateado. “Xabregas 10” é parcialmente a gravação do concerto de encerramento do Jazz em Agosto de 2014, o último de Jorge Reis, a quem o disco é dedicado. Não é um disco “ao vivo”, pois a gravação do concerto foi sujeita a uma pós-produção controlada pelo compositor, que lhe acrescentou alguma electrónica.

São quatro os longos temas, rondando os 10 minutos cada, dos quais se consegue já distinguir a “voz” própria de Marco Barroso e a originalidade das suas ideias para uma “big band” de jazz. Já o disse no passado, mas repito: no jazz, a “big band” ficou associada a uma modo e a um tempo, sendo também por isso um desafio complexo (apesar de, desde sempre, ter havido quem inovasse e alargasse as fronteiras desse contexto específico). Marco Barroso é um dos que procuram criar um discurso novo.

A música do LUME é sustentada quase sempre por um pulsar rítmico, um motor que, ao contrário da regularidade da locomotiva de Count Basie, tem oscilações imprevistas e uma personalidade instável. Ouvimos formas repetitivas e movimentos contrapontísticos – o clássico, dir-se-á –, mas que resultam de diálogos entre diferentes unidades e formas musicais e da sobreposição de motivos que parecem acertar-se por simpatia: um pouco como quando ouvimos dois ou três sons mecânicos que, por coincidência, acabam por construir um ritmo único, feito por diferentes bocados.

“Astromassa” é uma peça intensa, com “texturas pesadas”, feitas pelo uníssono de vários instrumentos. Um sentimento muito orquestral no sentido tradicional, que explora a dimensão sonora do grupo e que resulta num impossível filme de acção, porque sempre intenso, sempre acelerado, sempre eminente. “Pólen”, muito mais aberta e sinuosa, cria um universo psicadélico. “LSW” é uma peça extremamente fragmentada e musicalmente irrequieta. Usa a sigla de “Like a Swinger”, explorando a ambiguidade com “LSD” e leva-nos em direcções estilísticas e rítmicas inusitadas. Acaba com cinco minutos de “noise”, unindo a inconstância do “zapping” dos cinco minutos iniciais, aquele em que a música foi saltando entre composições como quem viaja pela sintonização de um rádio, através de um enorme colectivo aparentemente desregrado e levado ao limite. “Sandesblast”, cito, «é um título absurdista que começou com o facto de alguém comentar que a peça lhe fazia lembrar uma locomotiva».

O LUME tem 10 anos e um percurso musical sempre interessante. Sem baixos, é uma relação de altos a que mantemos com a “big band” que toca a música escrita e arranjada por Marco Barroso. É por isso obrigação de todos ouvir o novo disco: também porque são portugueses e conseguem permanecer, mas acima de tudo porque a música é excelente.

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