Jazz.pt | Lynn Cassiers – Imaginary Band *****


By Gonçalo Falcão

O chamado “jazz vocal” transformou-se, com o passar dos anos, num modelo aborrecido no qual se aproveita a linguagem inventada por Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Sarah Vaugham e muitas outras (quando no feminino) numa versão para consumo das massas, via loiras brancas bem formatadas na Berklee. É o branqueamento do jazz. Por isso mesmo este disco é tão interessante. Porque é um disco de jazz vocal não tendo o mínimo de parecenças com as sonoridades definidas pelas cantoras das décadas de 1930, 40 e 50. Lynn Cassiers canta e processa a voz, liderando um sexteto que tem uma instrumentação curiosa: violino, eufónio, saxofones, piano, contrabaixo e bateria, com intervenções de Ananta Roosens, Sylvain Débaisieux, Niels VermeulenErik Vermeulen, Manolo Cabras e Marek Patrman. O som inicial é o de uma geringonça consertada pela vocalista belga e transformada por meio de um processo rítmico rico, com todos os instrumentos a intervir. A voz sussurra, bel-canta, fala, melodia, grita ao longe, usa gravações de pilotos da TAP a comunicarem com a torre de controlo aéreo (sim, em Português…). Utiliza vários registos e formas dentro do mesmo tema.

A “Imaginary Band” toca e compõe metade das faixas deste registo colectivo e intensamente participado. As que são escritas pela cantora e que intervalam na ordem dos temas são mais contidas e electrónicas, com a voz e o seu processamento a dominarem. Em ambos os casos o espírito de canção está presente, numa música cheia de ideias e de coisas a acontecer, inquieta e ao mesmo tempo bonita. Ouvimos um grupo que soa a quarteto tradicional de jazz, mas que é capaz de rapidamente se transformar numa entidade texturalmente pouco comum, quando o violino, o eufónio (ou bombardino, instrumento da família das tubas) e os dispositivos electrónicos entram. É excelente o uso contido que Cassiers faz da traficância electrónica, sem invadir e ocupar todo o espaço, afirmando-se pontualmente e depois desaparecendo. Este é um jazz vocal novo e cativante, feito de canções que soam a novidade sem serem estranhas ou de ruptura. Muito interessante de ouvir, segue as diferentes mudanças de atmosferas e de cenários, que não são suficientes para sentirmos que há mudanças de história. O disco é coerente e instala-se no século XXI, dirigindo-se às pessoas que querem mais da música do que um sofá confortável.

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