Jazz.pt | Patty Waters – An Evening in Houston


By Gonçalo Falcão

«O jazz vocal não existe. (…) O jazz vocal é só uma finta vossa.»* Não existe como não existe jazz saxofonial nem jazz contrabaixial. Existe jazz e quem use a voz como instrumento. Na maioria das vezes, “jazz vocal” é apenas uma categoria criada pela indústria para vender música pop: usa a pele, veste o lobo e factura com canções bonitas cantadas num estilo langoroso, para as pessoas que querem muito poder dizer «eu gosto de jazz».

Há cantores de jazz, claro. Bessie Smith, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Cab Caloway, Chet Baker, Frank Sinatra e muitos outros inventaram novas maneiras de cantar, torceram o modo como a voz se comporta na música, criaram caminhos novos. Quando ouvimos Maria João a improvisar com Bobby McFerrin compreendemos o encanto e a magia da improvisação com voz no seu melhor. Percebemos ainda que existem inúmeras portas por abrir e músicas por ouvir. No jazz, que não no que se chama habitualmente de jazz vocal. E mesmo quando se cantou mais pop do que jazz (ex: “What a Wonderful World”, de Louis Armstrong) jazzou-se um bocadinho porque era novo, porque abria novos caminhos e porque era verdadeiro. Esse cenário de inovação mudou e hoje muito do que é catalogado como jazz (vocal) não passa de karaokizações de clássicos com filtros de Instagram. É branqueamento feito com glutões, para a produção de um produto vendável e experienciável, já que agora ninguém experimenta nada, só experiencializa. Foi por isso que corri para o novo disco da Clean Feed com Patty Waters! Mal recebi a notícia fiquei curioso, com a mesma curiosidade que teria se me tivessem informado que a Toblerone lançou uma salada de polvo. Clean Feed / Jazz Vocal: a coisa não encaixa e qualquer melómano sabe que quando a coisa não encaixa a coisa deve ser boa.

A surpresa começa na ficha técnica impressa no interior do CD. Alguns clássicos: “Strange Fruit”, I’m So Lonesome I Could Cry”, “Don’t Explain”, “I Love You Porgy” no meio de 12 temas primorosamente escolhidos: “Lonely Woman” de Ornette Coleman, “Off Minor” de Thelonious Monk (para os quais Patty Waters escreveu umaa letra) e um original, “Moon, Don’t Come Up Tonight”, dão a ideia de uma escolha meditada. Colocado o disco na gaveta do aparelho e subido o volume entra uma voz frágil, que contém a delicadeza e a transparência emocional de Nina Simone. A acompanhar só uma tarola com escovas. Prova-se a teoria, o disco é especial. Há que ouvir.

É uma voz usada, que guarda o seu uso no registo. Creio que foi David Toop que disse que não se incomodava com o “surface noise” nos discos de vinil: a sua vida também tinha “surface noise”. Esta voz tem “surface noise”. O disco é feito de elementos muito simples. Voz e bateria no primeiro tema, uma música cantada e tocada apenas com o essencial, num tom sombrio. Na segunda faixa, escrita pela cantora, expõem-se as fragilidades (mesmo as vocais) numa música e cantora que parecem presas por fios. No piano está Burton Greene, no contrabaixo Mario Pavone e na bateria Barry Altschul. Respect.
“Strange Fruit”, tema icónico de Billie Holiday, é cantado numa versão angustiante sobre a improvisação total do trio; a melodia original é uma vaga memória grandemente assegurada pela voz, o que faz todo o sentido, pois começou por ser um poema para só depois se transformar numa canção de protesto. O disco fecha com “Wild is the Wind”, do filme com o mesmo nome, numa interpretação em que quase todo o original é apagado e ficamos com uma repetição obsessiva da palavra “Wild”. É a canção mais pobre, uma abordagem teatral para a qual Patty Waters já não tem preparação.

Quem é Patty Waters? Uma cantora antiga, esquecida, com pouco trabalho gravado, mas todo muito bom. Depois de um começo em alta nos anos 1960 (tocando com Ran Blake e Burton Greene), desapareceu até à década de 90, quando ressurgiu para actuar no festival de Monterey. Retirou-se novamente até 2003, para regressar aos palcos do New York City’s Vision Festival e do Tolbooth Festival, na Escócia, em 2006, numa digressãocom Henry Grimes. Esta escassez contrasta com a qualidade: faz pouca coisa, mas o que faz é excelente. A americana tem sido requisitada aperiodicamente por gente com ouvidos finos. Diamanda Galas diz que Patty Waters é a sua maior influência e também Patti Smith a usa como referência.

Este é um daqueles discos que só pode ser lançado numa editora que valoriza a música acima do negócio e que edita aquilo que gosta sem consultar o Excel. E é com a portuguesa Clean Feed que Waters reaparece novamente, para outro disco especial, para gente curiosa.

*Adaptado de “FMI”, de José de Mário Branco

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