Jazz.pt review by Pedro Sousa


Parker / Guy / Lytton + Peter Evans – Scenes in the House of Music (CF 196)

**** 1/2

 

Evan Parker / Urs Leimgruber – Twine (CF 194) ****

Evan Parker apresenta-se em plena forma nos dois discos agora editados pela portuguesa Clean Feed. O primeiro, “Scenes in the House of Music”, foi gravado ao vivo na Casa da Música no ano passado e conta com o já sobejamente conhecido trio que formou com Barry Guy e Paul Lytton, mas desta vez com a brilhante adição do virtuosíssimo Peter Evans. Se a música do grupo já soava densa e compactada, com Guy e Lytton a criarem uma massa sonora fragmentária e com Parker dando largas à sua linguagem abstracta e à sua inigualável habilidade para comunicar, a adição de Evans, um músico jovem e com perspectivas novas, consegue transportá-la para um patamar de maior frescura, escapando até às normais convenções da música improvisada.
Não que o Evan Parker Trio toque aqui de maneira muito diferente do que vem fazendo. O que distingue este álbum é o facto de a inclusão de um quarto elemento ter rejuvenescido as antigas fórmulas que vem perseguindo. Por exemplo, o solo de Peter Evans no início da segunda improvisação cria um espectacular momento textural, assim demonstrando a enorme capacidade do membro dos Mostly Other People Do The Killing para desenvolver conceitos e situações menos previsíveis. De facto, o trompetista sugere umas vezes a sonoridade da electrónica, e outras apresenta-se mais livre e “a rasgar”, por vezes fazendo mesmo lembrar um réptil em fuga. Todo o álbum cria momentos de alternância entre os intervenientes, permitindo o destaque e a sobreposição de várias ideias e apresentando um discurso colectivo muito bem oleado.
O segundo disco foi registado no ano de 2007, em duo de Evan Parker com Urs Leimgruber no Loft, de Köln, sendo uma sessão mais intimista. O seu particular interesse advém da dimensão hipnótica e quase demente dos desenvolvimentos. Ambos os saxofonistas se apresentam com o tenor e com o soprano, e fazendo justiça ao título, “Twine”, os músicos entrelaçam-se ao longo das três peças que compõem o CD. Aqui a linguagem é mais frenética, e não obstante as óbvias distinções entre os dois músicos, o mimetismo que conseguem é impressionante, partilhando ideias e timbres de tal forma que, em certos momentos, parece estarmos a ouvir apenas um saxofone ligado a um “delay” ou, quando as coisas aceleram, três ou mais instrumentos.
A música nunca perde fulgor nem muda de tom ou atmosfera, tornando-se tão densa que às tantas é impossível identificar os instrumentos utilizados e até os instrumentistas, ficando apenas um carrossel animalesco, abstracto e enérgico.

+ There are no comments

Add yours