Jazz.pt – Starlite Motel – Awosting Falls *****


By Gonçalo Falcão

Desconhecendo por completo o grupo que edita agora o primeiro disco – Starlite Motel –, fui aos nomes dos músicos para tentar encontrar pistas. O norueguês Kristoffer Berre Alberts é um saxofonista ágil que domina várias linguagens no instrumento e toca com força e alma; ouvimo-lo antes nos Cortex e nos Snik. Jamie Saft vem de Nova Iorque e é o organista de eleição de John Zorn, com uma estrada enorme de colaborações brilhantes. Ingebrigt Håker Flaten toca contrabaixo e baixo eléctrico com força, como se lhe batesse, produzindo um som agressivo e conciso, sem ornamentos.

E porque o som é esse, jazz com muito stoner rock, junta-se Gard Nilssen na bateria, cujo projecto mais famoso, e que o poderá ajudar a referenciar, é Bushman’s Revenge. O facto de estes quatro músicos terem vozes próprias e muito individualizadas nos seus instrumentos levanta a possibilidade de a junção não funcionar, mas é precisamente o contrário que acontece: encaixam como peças do Ikea. Uma união perfeita que não anula cada um dos músicos mas potencia as diferentes personalidades e faz desejar que fosse decretada legalmente a obrigatoriedade de tocarem juntos. Tanta lei que se faz para aí, não se poderia pensar nesta para bem dos povos?

O sax agreste e rasgado soa muito bem e não impõe a sua presença continuamente, abrindo espaços ao grupo. Saft é incrível e é o grande segredo do som deste quarteto: obrigado a bolsar temas klezmer industrialmente, não lhe conhecíamos esta som flamejante. Em “The Prince of the Face of the Bull”, cria um ambiente incrível, com um arpejo monocórdico que faz lembrar o órgão de “Baba O’riley” ou “Won’t Get Fooled Again” dos The Who, mas directo ao assunto, incisivo, simples. Regressam os anos 1970 sem os excessos próprios da época. Que tema! Saft é o principal responsável pela identidade sonora do grupo, distanciando este de outros que actualmente exploram o mesmo universo estilístico.

Este jazz radica no “Bitches Brew” de Miles Davis, no “Lofty Fake Anagram” de Gary Burton ou no “Infinite Search” de Miroslav Vitous e é hoje explorado pelos Fire!, pelos Bushman’s Revenge, pelos Vandermark 5 e pelos Elephant9, entre outros, e de diversas maneiras. Tem um som denso, habitual nos grupos do Norte da Europa, com um baixo profundo e uma bateria que, sob a aparente binaridade, desenvolve diversos jogos rítmicos. O órgão e o saxofone ficam em pé de igualdade com a secção rítmica e não em cima, como é habitual na América. Com tudo em primeiro plano, a nossa audição flutua entre os diversos e simultâneos acontecimentos musicais. Nada é excesso, tudo é sumo.

O ano ainda não chegou a meio, mas este é já um dos discos enormes de 2016. Entre o rock tribal de Bo Diddley, a atitude dos The Doors ou dos The Who, o jazz espiritual de Alice Coltrane, ouve-se tanta coisa… E ouve-se repetidamente, que o disco não se gasta, revelando pormenores a cada escuta. Excelente surpresa, imperdível.

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