Jazz.pt | The Way Ahead – Bells, Ghosts and Other Saints *****


By Gonçalo Falcão

Um disco que começa em grande é outra coisa. E este começa assim. Ouvimos uma frase repetida nos saxofones, no trombone e no vibrafone que parece anunciar uma composição minimalista, mas é cantável ao mesmo tempo. Este início é abalroado pelo resto da banda, partindo-o em dois: permanece a repetição obsessiva, mas o choque instala outro tema, flexível, através da bateria, do contrabaixo e do trompete. Os dois grupos estão em dois tempos diferentes, mas a junção funciona e ficamos automaticamente presos à música.

Os The Way Ahead são um septeto. Quando entram todos os sopros, a música tem um “swing” fantástico, ligeiramente desordenado, como uma “marching band” de New Orleans demasiado bebida. A bateria de Tollef Østvang impressiona: como uma metralhadora, faz estragos. O septeto escandinavo pega na ideia de festa popular que Albert Ayler também usou – e de onde o jazz nasce – e aprofunda-a: toca melodias com a mesma procura de simplicidade e pureza e os temas cantáveis (e por vezes, até, dançáveis) vão pelo mesmo caminho. Não é preciso ser um especialista para perceber a referenciação: as pistas estão no título do disco: “Bells” (1965), “Ghosts” (1964) e “Saints” (1964) são temas (dois deles dão nome ao álbum) de Ayler, e por isso já não ficam muitas dúvidas sobre ao que vamos (se bem o grupo só toque temas originais de Tollef Østvang e Andre Roligheten).

Relembremos que, depois de ter sido dispensado do serviço militar em 1961, Ayler teve dificuldade em arranjar trabalho nos Estados Unidos devido ao seu som particular. Decidiu ir para a Dinamarca e a Suécia (1962-1963), onde foi bem aceite e gravou o seu primeiro disco na Fantasy, com uma secção rítmica em que tocava Niels-Henning Ørsted Pedersen, na altura com 16 anos.

Ouvido o disco até ao final percebemos que o caminho aberto pelo saxofonista americano ainda tem coisas por explorar e que os The Way Ahead querem precisamente voltar àquele território, à procura de mais pepitas. E acham-nas. Assim, este CD é um regresso às canções populares e marchantes, às ideias que parecem simples, que sempre lá estiveram, mas que ainda ninguém tinha visto. O grupo toca canções puras, com linhas de baixo moles, cheias do som das palhetas e dos metais, com a bateria e o vibrafone a desempenharem um papel determinante na contemporização. Nada aqui é “vintage”, perceba-se. Isto não é uma visita ao passado. Os saxofones não querem imitar o vibrato característico de Ayler. É música do presente, com a mesma procura da pureza original que moveu Ayler, indo à mesma fonte onde ele bebeu.

Apesar dos nomes dos músicos com tremas e outros acentos “viking”, já conhecemos esta gente e percebemos que a invasão foi desenhada com tempo e preparação. Esta música tem andado, de algum modo, sempre presente, nos grupos que nos têm chegado da Escandinávia. O saxofonista Andre Roligheten toca com Tollef Østvang (o baterista) nos Friends & Neighbors (que recentemente também lançaram um disco); os sopros de Kristoffer Alberts e o contrabaixo de Ola Høyer vêm dos Cortex; o trombonista Mats Äleklint e o vibrafonista Mattias Ståhl vêm dos Angles; o trompete de Niklas Barno ouve-se na Fire! Orchestra de Mats Gustafsson.

O vibrafone assume-se frequentemente como parte da secção rítmica, adicionando uma cor melódica à base sobre a qual os sopros disparam. É um elemento fundamental nesta banda, talvez por ser o mais inusitado. Os solos são excelentes. O grupo toca solto, com o tipo de coesão a que os nórdicos já nos habituaram no jazz: cumprem a missão sem se preocuparem demasiado com uníssonos ou com o rigor expectável num pequeno grupo orquestral. Neste sentido desafiam a lógica americana que adora o rigor e o acerto milimétrico. Aqui o tema é a festa e a celebração, uma ideia de revolução e liberdade que se mantém viva.

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