Op Doodles – Simon Nabatov | Mark Dresser – Projections


By Bruno Bènard-Guedes

Nestes dias de voláteis “amizades” virais e virtuais, é duplamente rejubilante identificar uma amizade que exigiu quase três décadas até tornar pública a mágica singularidade do seu plural. Esse insuspeito “nós” gerado no trânsito entre o inefável anímico e a apurada consonância do assombroso piano do mestre Simon Nabatov com o escrupuloso contrabaixo de Mark Dresser – que já se haviam cruzado em formações de maior escala, mas nunca em duo – apresenta-se neste “Projections”, tal como sugerido no título, como uma arrebatadora galeria de projeções em tempo real do mais audacioso e desafiante que há no núcleo dos códigos sensoriais que unem os dois instrumentistas. Dois músicos que tocam aquilo que são, mais do que “apenas” aquilo que tocam. A sua personalidade audível, a irreplicável deferência, a categórica confissão, a perene perscrutação, como um espelho das intenções mútuas, refletindo as reflexões da dupla num espaço e num tempo inequivocamente próprio. O escritor e realizador Jean Cocteau condensou de forma assaz definitiva esse gesto quando escreveu, para a sua obra prima “Le sang d’un poète” (1933), que “Les miroirs feraient bien de réfléchir un peu plus avant de renvoyer des images” (“Os espelhos fariam bem em refletir um pouco mais antes de devolver as imagens”). Verdade e consequência: isto é a verdade, realismo puro e duro, aconteceu exatamente assim (ao vivo no clube Loft, em Munique, no último dia de maio do ano passado), e no entanto tudo parece ser uma sua cândida consequência onírica, um inverosímil documento de insondável especulação e venustidade. Sem excessos de qualquer espécie, só inspiração e uma amizade que acredita radicalmente no utópico da arte sonora, acrescentando uma inusitada fraternidade a cada uma das iluminadas notas que aqui se abraçam.

Texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1175, de 14 outubro 2015

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