Peter Evans interview by Nuno Catarino on Bodyspace


Peter Evans
Em 1951 a editora Blue Note editava o primeiro volume de uma compilação dedicada à música de Thelonious Monk. Esse disco ostentava um pomposo título: Genius of modern music. Na altura o título poderia soar exagerado, uma vez que o pianista estava a dar ainda os primeiros passos, mas o tempo veio dar-lhe razão. Em 2011 poderá soar exagerado, para alguns, o rótulo “génio” aplicado a Peter Evans. Talvez o tempo nunca chegue a dar-nos razão, mas o trompetista americano já alcançou na sua curta carreira uma série de incríveis feitos. Nos seus espectáculos (e discos) a solo, Evans manipula o trompete como quem manobra plasticina, levado-o a fazer música que nunca se ouviu sair de um trompete, aplicando técnicas próprias de saxofone (como respiração circular), inventando novas técnicas, fazendo magia – com genealogia directa em Evan Parker. Com os seus grupos, Evans tem desenvolvido uma música que, alicerçada na modernidade, bebe sem vergonha na tradição, inclui subrepticiamente citações de clássicos da história do jazz, numa deliciosa amálgama multi-referencial. Nos últimos tempos o trompetista vem desenvolvendo uma aproximação a Portugal, apresentando-se ao vivo por diversas vezes, editando na label lusa Clean Feed: em 2010 o seu quarteto publicou Live in Lisbon (gravado no Jazz Em Agosto 2009); com o trio Parker/Guy/Lytton editou Scenes in the House of Music (na sequência de uma actuação na Casa da Música); neste 2011 o seu grupo Mostly Other People Do the Killing lançou The Coimbra Concert (gravado no Jazz Ao Centro 2010). Em Fevereiro toca com os MOPDtK no Portalegre Jazzfest e apresentar-se-á a solo na ZDB – concerto que deixará todos os espectadores boquiabertos, podemos garantir. Não se trata apenas de jazz, de música improvisada: a música viva contemporânea – sem fronteiras, criativa, imensa, brilhante – vive neste trompete que parece não ter fim. Senhoras e senhores, apresentamos Peter Evans, génio da música moderna.

Como se iniciou na música? Porque escolheu o trompete?
Comecei a tocar por volta dos sete anos de idade. Embora não vivesse num ambiente especialmente musical, os meus pais tinham imensos discos lá por casa. A minha irmã mais velha começou a tocar violino desde muito cedo e os meus pais sempre me incentivaram a escolher um instrumento, já que havia um professor de música que morava na nossa rua. Eu escolhi o trompete e as primeiras influências foram os discos do Wynton Marsalis e do Miles Davis dos anos 80. Quando aprofundei mais o conhecimento sobre jazz passei a ouvir muito Lee Morgan e os discos antigos do Miles – isto aconteceu por volta dos treze anos.

Além de Lee Morgan e Miles Davis, quais foram as outras influências decisivas no trompete, especialmente do lado da vanguarda? Don Cherry, Lester Bowie, Bill Dixon?
A partir do momento em que me comecei a interessar por música improvisada e free jazz passei a ouvir muito mais saxofonistas, especialmente Coltrane. Sempre quis ter a facilidade do saxofone e só mais tarde é que me apercebi que os trompetistas sempre tentaram a mesma coisa! Li uma entrevista do Roy Eldridge onde ele fala sobre o desejo de percorrer o trompete como se fosse um saxofone e penso que ele refere o Coleman Hawkins como influência. Ter sentido esta espécie de “inveja do saxofone” fez-me descobrir, por outro lado, que o trompete é capaz de fazer coisas que não estão ao alcance de qualquer outro instrumento. Eu nunca ouvi muito os nomes que referiu e, apesar de os três terem abertos portas importantes pelas quais eu também passei, não posso dizer que nenhum deles me tenha influenciado de forma directa. Ultimamente tenho prestado mais atenção ao Don Cherry, especialmente ao álbum Brown Rice. Nunca é tarde demais para descobrirmos coisas e irmos aprendendo alguma coisa dos músicos mais velhos, por isso talvez estas audições tenham algum efeito. Em termos de metais em geral, o estilo de George Lewis no trombone teve um grande impacto, especialmente nos discos de finais dos 70´s e inícios de 80´s. Ele mostrou-me o efeito libertador do virtuosismo extremo num instrumento de metal, de uma forma que mais ninguém tinha antes alcançado, especialmente na música mais livre. O quarteto do Anthony Braxton do disco Dortmund 1976 foi particularmente importante para mim.

Qual foi a influência de Evan Parker, especialmente o seu trabalho a solo na exploração do saxofone soprano?
Eu descobri a música do Evan Parker a solo quando andava no Oberlin Conservatory, entre 1999 e 2003. Foi por esta altura que estava a começar a improvisar com um grupo de amigos e a experimentar diferentes formas de criar música. A música dele abriu-me para um novo mundo, que incluía os seus contemporâneos Peter Brötzmann e Anthony Braxton, entre outros. A música a solo do Evan teve um grande impacto e deu-me a confiança para continuar a explorar o meu instrumento, para continuar a tentar ultrapassar as barreiras técnicas do instrumento de modo a alcançar o som que tinha na cabeça. A sua música apontou-me o caminho para um processo inesgotável de procura que envolveu um diálogo com o instrumento ao longo do tempo, que não com a ilusão do “domínio” do instrumento.

Para além de jazz e música improvisada, também toca música clássica. Como consegue conciliar interesses musicais tão díspares?
É um pouco triste que hoje em dia as palavras “jazz” e “improvisação” sejam mencionadas como duas formas diferentes de fazer música. É verdade que se torna difícil combinar todos esses estilos diferentes, mas sou muito curioso sobre muitas coisas e sei que se só fizesse uma coisa o tempo todo provavelmente não seria feliz e a minha música iria sofrer com isso. A minha solução tem sido aplicar-me sempre a 100% em cada situação, o que significa que durante um certo período tenho de deixar uma coisa de lado para me concentrar na outra. A minha esperança é que este esforço combinado possa produzir uma síntese interessante.


Actuou com o trio Parker/Guy/Lytton na Casa da Música, um concerto que resultou no álbum Scenes in the House of Music (Clean Feed, 2010). Como correu essa colaboração com o trio?

Eu fiquei muito feliz com esse concerto. Foi incrível ter partilhado o palco com esses tipos, pela segunda vez. Já tínhamos feito uns concertos no Vortex, em Londres em 2007, e tenho a impressão que no concerto no Porto estive um bocadinho melhor. A Casa da Música é um sítio incrível para tocar! O disco tem tido boa recepção e estou muito honrado por ter sido incluído na lista de músicos que colaboraram com este trio (lembro-me de George Lewis e Agusti Fernandez…)


O ano passado o Peter Evans Quartet editou Live In Lisbon, disco gravado ao vivo no Jazz Em Agosto. Este quarteto é a expressão mais completa do seu trabalho musical?

Sim, o meu objectivo passa por fazer com que o meu pequeno “ensemble” consiga habitar num espaço musical quase infinito. Ao longo dos últimos cinco anos o quarteto sofreu diversas mudanças, mas isto acontece porque eu também vou mudando! Fiquei muito contente com a experiência do Jazz Em Agosto, o grupo tocou muito bem. E a gravação da Clean Feed ficou fantástica! Fiquei especialmente contente com a gravação do contrabaixo do Tom [Blancarte], uma vez que ele é um músico explosivo e a gravação registou todos os detalhes da sua actuação. A música está sempre a mudar e o meu quarteto está agora a explorar música nova e a preparar-se para uma tour em Maio. Recentemente também fizemos um concerto em quinteto, em contámos com o Sam Pluta na electrónica “live”. Em princípio esta gravação será editada em Março e vamos voltar a tocar juntos no próximo ano.


O novo disco dos Mostly Other People Do the Killing, o álbum-duplo The Coimbra Concert, foi gravado ao vivo no Jazz Ao Centro e publicado pela Clean Feed. O que acha deste disco, o primeiro álbum ao vivo do grupo?

Todos nós nos MOPDtK sempre tivemos a ideia de fazer um disco ao vivo. Ao vivo a banda toca de uma forma que é muito difícil de recriar em estúdio. Estou muito contente por finalmente termos documentado esta nossa forma diferente de tocar, com uma boa gravação e perante um grande público! É o meu disco favorito dos MOPDtK até ao momento!

Os MOPDtK vão tocar em breve em Portugal, no Portalegre Jazzfest. O que podemos esperar desta actuação?
Cada concerto é sempre ligeiramente diferente do anterior! Por isso, felizmente, não posso prever o que irá acontecer em palco.

A sua música inclui habitualmente excertos de standards jazz (mais longos ou mais curtos, de forma mais ou menos óbvia). Como surgiu esta ideia de ir integrando excertos clássicos entre a música original?
Eu gosto da sensação de fazer uma coisa familiar soar estranha, ou até mesmo revelar sua estranheza interior, mas não acho que isso implique abdicar da história. Eu gosto desse envolvimento com a história, navegando um caminho simultaneamente cheio de conhecimento e incompreensão.

Nos espectáculos a solo apresenta, além de uma experiência musical única, uma exploração incrível do som do trompete. Como encontrou estas formas novas de explorar o instrumento?
Como já disse, essa ideia de “mestria” ou “domínio” do instrumento é uma ilusão. Eu estou interessado na explosão do som e nos significados que surgem quando biologia, tecnologia, história e cultura se encontram e cruzam num determinado momento. Para mim, esse ponto de contacto é “a música”. Além disso, dá-me um prazer imenso tocar o trompete, adoro! Embora tenha alguns concertos mais difíceis que outros, um concerto a solo é uma viagem pela imaginação, contar histórias e encontrar objectos estranhos, para brincar e analisar de diferentes ângulos. Desde que o acto de tocar continue a entusiasmar-me desta forma, encontrar música nova nunca será um problema.

Nos últimos anos tem sido um visitante regular de Portugal, dando vários concertos, e também editou alguns discos na editora Clean Feed. Sente que já estabeleceu uma ligação especial com este país?
Há uns dias atrás estava a pensar nisso, como até há cerca de dois anos atrás nunca tinha estado em Portugal. Agora acho que já toquei aí umas cinco ou seis vezes! É fantástico e eu estou surpreendido porque aí as pessoas gostam muito da minha música! O Pedro Costa (Clean Feed), o Rui Neves e o Bruno Sequeira (Jazz Em Agosto) têm sido incríveis no apoio que me têm dado nos últimos anos e espero que a nossa relação continue assim. Portugal é um sítio fantástico, até já levei aí a minha namorada de férias em 2009 e 2010. Adoro as pessoas, a história, a arquitectura e a comida deliciosa: arroz de polvo, pastéis de nata, etc.

Tem actuado com músicos como Mary Halvorson, Nate Wooley, Zach Hill ou Okkyung Lee, entre outros. Sente-se parte de uma nova geração de música criativa?
Esses quatro músicos são incrivelmente diferentes entre si! Nós estamos unidos pela idades (mais ou menos) e ocasionalmente reparo em diferenças em termos estéticos e de opiniões, entre músicos da minha idade e outros mais velhos. Mas é difícil generalizar ou tirar conclusões sobre aquilo que poderá distinguir uma geração de outra – deixo esse trabalho para vocês, jornalistas.

Que discos tem ouvido nos últimos tempos?
Recentemente a rádio WKCR (da Columbia University) esteve a celebrar o centésimo aniversário do nascimento do trompetista Roy Eldridge – tocaram a sua música durante 48 horas e eu estive a ouvi-lo com atenção. A minha namorada foi ao Afeganistão ensinar trompa e trouxe-me um disco fantástico de música popular afegã, que lhe foi-lhe oferecido por um taxista, e não tem qualquer informação sobre quem canta. É fantástico! A maioria das canções tem compassos de 7/8 e as vozes têm “auto-tune”, como o T-Pain! Tenho ouvido muito o álbum homónimo dos Orthrelm, editado pela ugExplode – é uma música obsessiva, super precisa. Tenho ouvido também – em parte por uma questão de estudo, mas não só – diversas propostas jazz com ideias rítmicas interessantes, como os discos do quarteto do Wynton Marsalis dos anos 80 com o Jeff “Tain” Watts na bateria e algumas coisas do quinteto de Miles Davis Quintet, especialmente “Footprints” no Miles Smiles. Recentemente comprei o disco Éthiopiques, Vol. 21, um álbum de piano solo de Tsegue-Maryam Guebrou – é uma combinação muito interessante de Chopin e elementos das tradições etíopes.

Para alguns ouvintes a sua música representa um grande passo na música contemporânea. Como reage quando chamam de génio? Como analisa o seu trabalho e o enquadra na história da música?
Eu fico feliz por as pessoas escutarem a minha música com tanta atenção. Mas não sou um génio, sou apenas uma pessoa que adora criar e ouvir música. Tenho tentado fazer a melhor música que consigo, de acordo com aquilo que estou a pensar e a sentir nesse momento, com músicos que me inspiram e que me provocam. Se as pessoas gostam de ouvir isto, é fantástico. É muito importante que as pessoas se possam expressar da forma que quiserem, independentemente da forma utilizada, desde que isso não prejudique ninguém. Nesse sentido, espero que a minha música possa servir de exemplo.

Quais são os seus planos para os próximos tempos?
Este mês vou lançar a minha própria editora, More is More Records (moreismorerecords.com). Gostaria de editar mais trabalhos meus, de modo a mostrar uma identidade e estética comuns. No futuro gostaria também de editar trabalhos de outros músicos. O primeiro disco da editora, Ghosts sairá em Março. É um quinteto que, além de mim (no trompete e composição), conta com Carlos Homs no piano, Tom Blancarte no contrabaixo, Jim Black na bateria e Sam Pluta na electrónica. Para mim, este disco é o meu trabalho mais completo e inclusivo – estou muito feliz com este álbum. A Clean Feed vai ajudar-me na distribuição na Europa, por isso deverá ser fácil encontrá-lo em Portugal. Nos próximos anos espero continuar a actuar com o grupo acústico (o quarteto) e também com o Sam (em quinteto), tanto quanto seja possível, e tocar música nova, ao mesmo tempo que espero ir refinando aquilo que já conheço. Estou sempre a compor música nova para o meu trio, quarteto, quinteto e para os grupos onde colaboro, e pratico o trompete sempre que posso. Há sempre muitas áreas por explorar.
http://bodyspace.net/entrevistas.php?ent_id=375

+ There are no comments

Add yours