Público – Powertrio – Di Lontan ****½


By Gonçalo Frota

A teoria da eterna mutação do Powertrio

Ao terceiro álbum, Eduardo Raon, Luís José Martins e Joana Sá protagonizam uma extraordinária escalada na música portuguesa. Di Lontan é um testemunho espantoso de música em deslocação permanente, sem portos seguros.

Sentado num comboio entre Oxford e Londres, Maurice Ravel começou a compor em Outubro de 1928 o seu Concerto para Piano, severamente inspirado pela sua deslumbrada descoberta do jazz no ano anterior. Essa dívida para com o jazz e para com Gershwin, audível sobretudo no primeiro e no terceiros andamentos, converte-se pelo meio numa belíssima peça distendida que, nem na mais febril hipótese, se reconhecerá em À Flor do Mal, tema do Powertrio que abre Di Lontan. Antes de ser baptizado com uma adulteração de Baudelaire, o título de trabalho “Francesinha” denunciava a identificação de uma proveniência “do lado mais francês impressionista da canção”. “Era fixe experimentarmos uma textura semelhante à do segundo andamento do Concerto de Ravel”, lembra-se Luís José Martins de comentarem num ensaio. “Claro que depois o resultado não tem nada que ver com o Ravel.”

“A característica que mais nos chamou a atenção no Ravel”, completa Eduardo Raon, “era a qualidade de uma melodia torta ou de auto-sabotagem que tem um lado maroto e subversivo, na medida em que escapa sempre ao óbvio. E isso é algo que nos interessa.” De facto, essa fuga ao óbvio é uma constante na música que Luís José Martins (guitarra), Eduardo Raon (harpa) e Joana Sá (piano) assinam enquanto Powertrio. Desde logo porque se a designação do grupo remete para um universo do rock, nesta triangulação de linguagens a única justificação, com alguma ironia, que se pode encontrar em tal ligação é a de “uma energia” pilhada ao universo de guitarras guinchantes. Mas não há nada de rock no Powertrio. Antes um baloiçar constante entre música improvisada, jazz avant-garde e música contemporânea.

O vocabulário e as noções incham, por isso, nos seus significados. Quando Luís José Martins fala de canção referindo-se a “À Flor do Mal” ou ao segmento final de O Nervo e a Outra Dança, tal deve simplesmente ler-se como a capacidade de no meio do pântano da abstracção emergir uma melodia clara que por ali se aguenta tempo suficiente para se tornar reconhecível.

E nunca se aguenta muito tempo. A música do Powertrio faz-se de inconstância e parece obedecer a uma lógica constante de deslocação. Funciona como uma deriva – segue uma marcha lenta, uma metamorfose que responde àquilo a que Raon chama “uma necessidade estrutural ou genética de fazer diferente”. “Vejo sempre aquilo que fazemos como uma construção orgânica”, perspectiva Luís. E é assim que os Powertrio se ouvem, como se fizéssemos uma observação ao microscópio de um organismo que esperneia e não aceita a imobilidade ou a repetição. Para os três, no entanto, nada disto implica uma abordagem contemplativa – a chave está na reacção e na resposta contrastada que atiram para cima da mesa, testando a elasticidade de cada composição e as suas características mutantes.

O Nervo e a Outra Dança demonstra claramente essa forma de interacção, de atracção pela turbulência, de movimento pendular entre tensão, alívio e novamente tensão, mas já sob uma luz diferente – o regresso a uma ideia nunca gera consolo, antes estranheza por uma vaga familiaridade.

Homenagem a Constança

Di Lontan deve o seu título à peça Di Lontan Fa Specchio il Mare (1989), composição de Constança Capdeville que o Powertrio aborda no seu terceiro álbum. É, de alguma forma, uma negação do carácter transformador que o trio parece identificar como a sua matriz sonora. Foi, por isso, escolhida tanto pela “afinidade com a música da Constança” e por ser um “material muito bonito”, quanto pelo questionamento a que obriga o grupo. “É um convite à criação de um momento que exige uma escuta e uma interacção muito diferente daquela que é a nossa habitualmente”, afirma o guitarrista. “Acho que não há nenhum exemplo de música nossa que não se transforme, e aqui temos quase 12 minutos num ambiente único, com muito pouco movimento, o que é algo quase impossível com estas três personalidades musicais.” Ao longo desses 12 minutos, as notas do piano pingam delicadamente sobre um fundo tenso – tensão essa que resulta sobretudo da determinação em não avançar para outro cenário.

Di Lontan, além da homenagem evidente à compositora, concretiza o facto de cada um dos três músicos se sentir “um pouco herdeiro” de autores portugueses como Constança Capdeville e Jorge Peixinho, fazedores “de uma música muito especial mas meio esquecidos”. “Ninguém os toca”, lamentam. Sem com isso assumirem qualquer missão de pastilhas para a memória musical do país, não deixam de procurar alimentar esse legado. “Eram compositores com os quais gostaria muito de ter trabalhado – e a distância não é assim tão grande”, nota o guitarrista.

“Acho que não há nenhum exemplo de música nossa que não se transforme, e aqui temos quase 12 minutos num ambiente único, com muito pouco movimento, o que é algo quase impossível com estas três personalidades musicais” Luís José Martins

A possibilidade de trabalhar com outros compositores, para músicos provenientes de uma formação clássica, poderia até ser bem-vinda num Powertrio que responde sobretudo a esta original formação de piano, harpa e guitarra, e assina uma música muitas vezes desconcertante. Tão desconcertante que encontram mais acolhimento em salas e festivais ligados ao jazz do que nos circuitos mais conservadores da música contemporânea. O principal obsctáculo na chamada desses compositores decorre precisamente da originalidade dos instrumentos – não existe reportório escrito para um tal trio, a escrita para harpa e guitarra não é das mais fáceis e as técnicas e os recursos com que cada um adultera o som do seu instrumento não são óbvios e teriam de ser integrados numa composição para que a identidade do grupo fosse devidamente explorada por terceiros.

E seria talvez necessário explicar que o humor que abordam no tema final, Divertimento, é igualmente um dos atributos do Powertrio. A música abstracta costuma ser encarada como séria e austera, mas Eduardo Raon diz espantar-se com o facto de ser comum ouvir o comentário de que as pessoas não percebem a música que os três fazem. “Como se toda a gente percebesse Mozart e Mahler”, riposta. “Porquê essa necessidade de compreensão analítica de uma obra, quando noutras formas de música não parece existir?”

Não nos enganemos, no entanto. Di Lontan não é um álbum de digestão fácil. Mas também por isso demora-se com o ouvinte, revela-se com tempo e com exigência. É como escalar a montanha que encontramos na capa – há que trabalhar para chegar lá acima, mas a vista, quando o ar já é mais rarefeito, compensa cada passo ofegante.

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