Rimas e Batidas | Larry Ochs – Aram Shelton Quartet – Continental Drift


By Rui Miguel Abreu

A movimentação tectónica a que alude o título do registo que documenta o encontro do saxofonista Larry Ochs (tenor e sopranino) com o quarteto conduzido pelo também saxofonista Aram Shelton (alto) caracteriza-se, essencialmente, por ser lenta e massiva. Essa deriva continental pressupõe afastamento de massas, mas também um encaixe primordial. E essa será uma boa metáfora para o que se escuta neste Continental Drift em que os saxofonistas que lideram esta sessão e que repartem, alternada e igualitariamente, as autorias do material, conduzem um ensemble que conta ainda com os préstimos de Kjell Nordeson (bateria), Mark Dresser (que assegura baixo na primeira de duas sessões, em que se gravaram seis dos oito temas aqui incluídos) e Scott Walton (outro baixista, este de serviço apenas nas faixas 4 e 8 do alinhamento, as que resultaram da segunda sessão).

Ochs, com 61 anos, é um veterano em plena posse de uma assombrosa força, um dos motores do lendário Rova Saxophone Quartet desde finais dos anos 70, pilar da cena jazz da Bay Area, na Califórnia e participante em dezenas de grandes sessões ao longo das últimas quatro décadas. Já Shelton, “jovem” de 44 anos, começou a deixar marcas na paisagem jazz americana em finais dos anos 90, exactamente duas décadas depois de Ochs ter dado os seus primeiros passos, tendo ao longo dos anos participado em trabalhos de Tortoise, Fred Lonberg ou Henry Kaiser, para citar apenas um par de nomes. Dos oito temas do alinhamento, seis foram gravados em Julho de 2013, e os restantes (as peças “Continental Drift” e “The Others Dream”, faixas 4 e 8 do alinhamento, respectivamente) exactamente 5 anos mais tarde. Talvez o material mais recente seja mais feérico e abstracto, com as restantes peças a circularem entre terrenos mais devedores da tradição (“Anita”, peça composta por Shelton, é um bom exemplo, na sua cadência mais baladeira), com diferentes encaixes em noções de tempo rítmico (uma das mais interessantes peças nesse aspecto é “Strand”, da autoria de Ochs, quase parecendo que os dois líderes, o veterano mais associado a São Francisco, o mais jovem tendo feito nome no circuito de Chicago, decidiram encontrar-se em terreno neutro, com o tema a parecer viver com típico pulso e pura energia nova-iorquina).

Ambas as sessões são tremendas, com os dois líderes do quarteto a apresentarem-se em absoluto topo de forma, elegantes no estilo, generosos na entrega e incapazes de cederem um milímetro à facilidade, com a secção rítmica a revelar o nervo necessário para seguir em qualquer direcção proposta, seja qual foi a dose de inventividade que possa estar em causa. E a já citada “Strand” é um bom exemplo disso mesmo, com Dresser e Nordeson a oferecerem aos solistas um criativo trampolim rítmico que os impulsiona até à estratosfera.

www.rimasebatidas.pt

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