Rimas e Batidas | Roots Magic – Take Root Among The Stars


By Rui Miguel Abreu

De acordo com LeRoi Jones (mais tarde Amiri Baraka) em Blues People, o blues é a música que resulta da experiência de “transformação” do negro africano forçado a ir para o Novo Mundo em “negro americano”. A música, explica o poeta e autor, é indissociável desse processo de mutação identitária. Poderia, por isso mesmo, questionar-se o que fazem Alberto Popolla (clarinetes, objectos), Errico de Fabritiis (saxes alto e barítono, harmónica), Gianfranco Tedeschi (contrabaixo) e Fabrizio Spera (bateria, percussão, zither), um quarteto nascido em Roma, quando reclamam como raiz do seu som o blues nascido nos (geográfica, cultural e cronologicamente) distantes campos de algodão do sul dos Estados Unidos. A resposta poderá estar numa das palavras do nome escolhido para este colectivo: Roots Magic.

Essa magia a que o ensemble romano se refere poderá ser a que explica que os blues tenham igualmente sido reclamados como um pilar do pensamento por trás do free jazz, a outra grande referência destes Roots Magic que aqui chegam ao seu terceiro e talvez mais completo e ambicioso registo (sempre com o carimbo editorial da Clean Feed). Assim, ao lado de peças de Charlie Patton (“Mean Black Cat Blues”) ou Skip James (“Devil Got My Woman”), há por aqui abordagens à obra de Phil Coran (“Frankiphone Blues”), Kalaparusha Maurice McIntyre (“Humility in the Light of Creator”, peça que admite alusões a “Space is the Place” de Sun Ra), Charles Tyler (“Still Screaming for Charles Tyler”), Ornette Coleman (“A Girl Named Rainbow”, tema originalmente gravado por Andrew Cyrille), Sun Ra (“When There is no Sun”) ou John Carter (“Karen on Monday”).

Um lamento resultante de opressão que se transforma em urgente grito de liberdade, portanto, o eixo em que assenta o libertário jazz deste quarteto pontualmente dilatado neste assombroso trabalho (Eugenio Colombo acrescenta flauta e flauta baixo em “Frankiphone Blues” e “Devil Got My Woman”, respectivamente, e Francesco Lo Cascio junta-se igualmente aos mesmos dois temas, no primeiro em vibrafone e no segundo em gongo). E é essa telúrica, porventura mágica, força que lhes guia os aventureiros passos pelo reportório cuidadosamente escolhido e a espaços radicalmente transformado. A visão que os Roots Magic possuem dos blues, e já agora do free jazz, não é estanque ou académica, antes emocional ou estética, uma abordagem que os liberta, muito literalmente, para se inscreverem eles mesmos num fluxo histórico que continua aberto a mutações. O resultado é uma música carregada de audácia, espírito de aventura, servida por um grave sentido sonoro, como se os Roots Magic quisessem fazer estremecer as fundações da própria História, não para a destruírem, antes para lhe sacudirem o pó, expondo as suas cicatrizes, conquistas, os seus lados mais sombrios, mas também os episódios de afirmação mais brilhantes.

www.rimasebatidas.pt

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