Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes


Matt Bauder – Day In Pictures (CF 210)
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Os que se lamuriam pela deriva do jazz para territórios cada vez mais inóspitos e arredados da “tradição” têm aqui assunto para ruminar. Eis um músico profundamente envolvido na “vanguarda” (escute-se o trio Memorize The Sky, a Exploding Star Orchestra, ou o sexteto de Taylor Ho Bynum) que, neste projecto particular, recorre à “tradição” não como modelo para emulação e revivalismo serôdio mas como ponto de partida para a reinvenção.
Adoptando via oposta ao thrash-bop dos Mostly Other People Do The Killing, que dão nova cara ao jazz clássico através de cirurgia plástica sem anestesia e com luvas de boxe, o quinteto do saxofonista Matt Bauder reformula os cânones mediante subtil e sofisticado trabalho de composição e arranjos. Os temas são todos originais e incluem hard bop enérgico que soa como uns Jazz Messengers etilizados (“Two Lucks”), baladas de melancolia cubista (“Willoughby”) ou melodias elegíacas que são submersas por imparável efervescência (“January Melody”), numa prodigiosa coexistência de tradição e inovação só é possível porque Bauder tem consigo uma equipa imperial: Nate Wooley (trompete), Angelica Sanchez (piano, infelizmente demasiado “submerso” na mistura), Jason Ajemian (contrabaixo) e Tomas Fujiwara (bateria).
Sete lições que poderiam servir para abrir horizontes às legiões de jovens aplicados que insistem em decalcar Kind Of Blue. Imagine-se se no domínio do pop-rock ainda hoje se acreditasse piamente que Please, Please Me era o término e ápice da evolução.

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