Time Out Lisbon review by Jose Carlos Fernandes


cf-1232Harris Eisenstadt – Guewel (CF 123)
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Houve incontáveis jazzmen, sobretudo negros e sobretudo durante a explosão do free, a proclamar orgulhosamente as raízes africanas do jazz, mas poucos se deram ao trabalho de passar da reivindicação e do manifesto programático ao amor genuíno e ao estudo aprofundado dessas raízes. O baterista Harris Eisenstadt é branco, nasceu em Toronto e vive em Brooklyn, mas o seu coração é senegalês. Ou pelo menos, bate em ritmos senegaleses, assimilados ao longo de aturados estudos na África Ocidental e em Nova Iorque com master drummers africanos – isto após ter tido no jazz professores do gabarito de Barry Altschul e Gerry Hemingway.
Neste disco o jazz conflui com os ritmos tradicionais senegaleses (Sabar) e a moderna música pop senegalesa (Mbalax), representada por temas da Orchestra Baobab ou Star Number One.
A formação – com corneta, trompete, trompa, sax barítono e bateria – é pouco habitual, senão mesmo inédita, e conta com dois grandes nomes do jazz moderno – Taylor Ho Bynum e Nate Wooley. O quinteto soa como uma pequena fanfarra cómica que transita (nem sempre com naturalidade, reconheça-se) entre uma algaraviada caótica e melodias expansivas de sabor africano, umas vezes de tom jubilatório, outras solene. “Dayourabine/Thiolena” começa em toada cartoonesca e trocista e prossegue numa marcha desalinhada e risível, “Kaolak/N’Wolof” e “Barambiye/Djarama” desdobram-se em mil cores. Eisenstadt sabe tirar partido do seu heterodoxo quinteto de forma a obter combinações tímbricas inauditas e, sem reclamar protagonismo em solos nem fazer estardalhaço, providencia um original fervilhar percussivo que vai empurrando a música em frente.
Um exemplo raro e feliz de um reencontro do jazz com os seus primos de África.

 

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